OPINIÃO

AS PRIORIDADES DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Está decorrer em Paris a tão esperada 21ª Conferência das Nações Unidas sobre alterações climáticas, prolongando-se até dia 12 de dezembro. A imprensa e as televisões de todo o mundo deram destaque ao assunto, incluindo as portuguesas, estas últimas com um espantoso sentido de oportunidade  e uma evidente preocupação ambiental.

 

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Vejamos. Os países levam até Paris propostas e metas para a redução das emissões e da poluição atmosférica. São novas contribuições sobre a utilização das energias renováveis, que visam a redução do consumo de combustíveis fósseis. Espera-se também que venha a ocorrer uma revisão das metas para se proceder a uma fazer avaliação dos avanços e retrocessos obtidos com a política em curso.

Os meios de comunicação deram o devido relevo a uma conferência que, entre outras coisas, vem traduzir para o mundo aquilo que o mundo já sabia:  o planeta corre sérios perigos, se o aquecimento global se mantiver aos níveis atuais.

Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, 2015 será o ano mais quente de sempre desde que há registo. Cientistas e ativistas alertam também para o rápido aumento da que, a chegar a mais de 2ºC, teria consequências drásticas para o planeta, nomeadamente a subida do nível das águas. Mas, apesar dos discursos de boa vontade, por parte de todos, países clara ou moderadamente poluidores, a verdade é que existe uma conjetura económica que só se mantém, justamente, à custa de medidas pouco rígidas no campo da legislação ambiental.

A constituição de um fundo de 100 milhões de textos para ajudar os países a lidar com as consequências dos desastres naturais, por exemplo, parece ser uma forma de os países ricos se descartarem do problema ambiental, uma espécie de bula papal para poderem continuar a provocá-los.

Perante este cenário preocupante, gostaríamos de saber qual o teor dos discursos, que países fazem um verdadeiro ato de contrição, que países procuram continuar a manter a todo o custo um estado de coisas incomportável: as emissões de gases poluentes a todo o gás, a exploração cega dos recursos naturais do nosso planeta.

Teríamos também gostado de saber como foi tratada a questão do petróleo no Médio Oriente, que medidas se propõem para evitar que os lucros deste recurso natural revertam a favor da ameaça à paz no mundo…

No entanto, não foi isso que a televisão nos deu, na segunda-feira, dia da inauguração da Cimeira. De um momento para o outro, um problema que radica de há mais de um século ficou esquecido face à impossibilidade de o nosso 1º Ministro discursar na Cimeira, por não ter sido inscrito pelo anterior governo! Algo que nem os próprios valorizaram foi o mote das reportagens do dia em todas as televisões. Estaremos a ficar prisioneiros de uma nova forma de poluição ambiental chamada comunicação social?

Fonte:  http://www.rtp.pt/noticias/mundo/cimeira-do-clima-o-que-se-vai-discutir-em-parist_a877758#

Ana Isabel Falé

         

 Manuel Halpern, “O Mural de Pessoa”

……Se no tempo de Fernando Pessoa houvesse Facebook, então é que a arca nunca mais acabava. E os pessoanos estudariam cada like, com afinco, procurando as motivações literárias e as personalidades escondidas naquele gesto espontâneo. E as partilhas. Talvez aquela Oração que circula por aí, da Banda Mais Bonita da Cidade, lhe despertasse os sentidos, ou pelo menos a um dos heterónimos. Ai, se a equipa do Mark Zuckerberg descobrisse os heterónimos iria logo classificá-los como perfis falsos, e lá se ia o mural do Álvaro de Campos. Talvez não dessem por nada. E só anos mais tarde os pessoanos mais aplicados encontrariam um perfil falso sem amigo nenhum, mas pessoanamente genial.
……Sim, o Álvaro de Campos seria o mais torrencial. Partilhas em catadupa, remissões para o blogue, momentos de grande euforia e habilidade informática.

O Ricardo Reis publicaria, rigorosamente, um post por dia, e só aceitaria amizade de pessoas com quem privasse. O Alberto Caeiro não seria informaticamente dotado, mas até acharia graça à coisa. O Bernardo Soares gostaria mais do Twitter. Nenhum deles teria cinco mil amigos, nem mesmo o Fernando Pessoa ortónimo, sobretudo por uma questão de timidez, apesar de passar demasiado tempo no chat com Ofélia. Todos os posts de amor são ridículos.
……Imagine-se o manancial de informação arquivado. As publicações do mural. O Almada Negreiros seria um dos mais fervorosos frequentadores, com considerações e discussões acesas. Até ao dia, claro está, em que via a conta bloqueada, por denúncia de Júlio Dantas, que considerou aquela história do “Pim!” indecorosa e imoral no seu mural.
……Quando inventaram a revista Orpheu criaram um evento, a que poucos amigos ligaram. Mas eles insistiram muito. Até criaram um site onde publicavam apenas parte dos conteúdos… Quem quisesse ler o resto que comprasse a revista. Contudo, o volume três apenas sairia em edição digital, com grafismo do Almada e ciberarte do Amadeo.
……Todos choraram muito a Morte de Mário de Sá-Carneiro. De Paris, ele já tinha colocado uns posts que sugeriam a depressão, mas ninguém poderia esperar aquilo. O Mural encheu-se de comoventes mensagens de despedida. Alguns até lhe dedicariam poemas.
Quando Fernando Pessoa morreu, misteriosamente, Ricardo Reis continuou ativo, a publicar os seus posts diários. Quem descobriu isso foi esse tal de Saramago, que o matou anos mais tarde.

http://visao.sapo.pt/jornaldeletras/rubricas/homemdoleme/homem-do-leme-o-mural-de-pessoa=f610184

 

Paris, 13 de novembro

Face aos recentes acontecimentos de Paris, e depois de lamentarmos profundamente as vidas perdidas, resta-nos tentar compreender o que leva jovens europeus, nascidos e criados na Europa, cidadãos de países europeus, independentemente das suas origens islâmicas, a simpatizarem com o fanatismo dessa organização que se auto-intitula “estado islâmico”.

Com isto, não se pretende menosprezar a motivação dos jovens das comunidades islâmicas dos países do Médio Oriente. Esta parece-nos mais óbvia, cimentada por vivências de guerra e por uma educação espartana, direcionada para instigar o ódio e a crueldade, logo nos primeiros anos de vida.

O que nos deve causar estranheza é a forma como a simpatia dos jovens terroristas se desloca dos interesses próprios dos jovens da sua idade para um ideal que conduz ao sacrifício e à morte. Aparentemente, a escola pública terá falhado a educação para a valorização e preservação da vida, da própria, em primeira instância, e a de outrem, como valor acima de quaisquer outros, em lugar do ódio que faz valer uma crença, pois é de crenças que aqui se fala.

Comecemos pelas crenças ocidentais. Se perguntarmos aos nossos jovens em que é que acreditam, o mais natural é sermos confrontados com o silêncio. Se lhes pedirmos para organizarem por ordem de importância as crenças mais básicas, nos campos da família, da religião, da socialização, da ética ou da filosofia, ficaríamos talvez surpreendidos com a pouca importância atribuída à religião e às crenças filosóficas sobre o sentido da vida. Dir-se-ia que alguns jovens europeus, na ausência de ideais próprios, e perante o vazio de uma vida social muito à distância, buscam situações de partilha e de militância, ideias com objetivos concretos, radicais, de rápida operacionalização e com um traço de heroísmo que as faz atraentes. É como se o heroísmo hoje em dia só pudesse consubstanciar-se na morte, ou como se não houvesse na cultura ocidental um ideal suficientemente forte para envolver a adrenalina de uma nova geração, com vontade de se afirmar face à anterior.

                 Abdelhamid Abaaoud, o cidadão belga que organizou os atentados

Assim, não é de estranhar que, em sociedades como a francesa e a belga, onde a tensão social e a radicalização já existe, haja uma motivação intrínseca para o terrorismo ou para a luta armada, fruto de um sentido de marginalização e de xenofobia que estas sociedades, bastante fechadas, oferecem. Sabemos como Paris, sobretudo, tem estado permanentemente a ferro e fogo com manifestações de revolta por parte das populações migrantes aí radicalizadas, através de ações de protesto e de vandalismo.

Aparentemente, as atitudes de revolta e de ação política que a 1ª e a 2ª geração de emigrantes não tomaram, apesar de submetidas a dificílimas condições de adaptação e de trabalho, são agora tomadas pelos seus descendentes que, não só não conheceram tantas dificuldades, como foram escolarizados, usufruindo das mesmas condições de todos os outros jovens do país de acolhimento (exceto talvez as oportunidades de trabalho). A língua-mãe, neste caso, parece ser a língua dos pais e não aquela no seio da qual cresceram e foram educados. E quem diz a língua diz a cultura,  a identidade, a crença, o ideal. E isso é tudo.

Porém, por mais que tentemos compreender as motivações de jovens como Abdelhamid Abaaoud, tal não passará de um mero exercício de retórica. A verdade é que o mundo é desigual e que o velho fantasma do colonialismo europeu ainda faz da Europa um velho continente arrogante e carrancudo, vestido de xenofobia, um palco onde se representam os destinos dos países mais pobres.

Na realidade, o mundo parece estar condenado a esta cisão diametral e à ausência de comunicação, parlamentação, debate, cedência, justamente porque é a cegueira que conduz a ética política, ou a falta dela, com retaliação, fanatismo e ameaça. E não há, neste jogo, inocentes e culpados.

Penso que, nesta sociedade da informação e da comunicação, o mundo está perigosamente próximo de si mesmo. Tudo acontece em direto e com mais impacto, replicado por milhões de vozes, onde se lê tanto o amor como o ódio e onde se acende e apaga um e outro. E, entretanto, a morte vai acontecendo em todas as fronteiras, tal como o medo e o horror acontecem, assim, num dia qualquer num café qualquer do mundo.

 

Ana Isabel Falé

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