CONTOS

EM BUSCA DO SOL

de LUCINDA SANTOS

 

Num tempo e num lugar que jamais conseguiremos precisar, viviam, em perfeita harmonia, algumas personagens evadidas dos contos tradicionais e dos contos de fadas nossos conhecidos. São elas: a vaidosa Carochinha e o guloso João Ratão, salvo do caldeirão graças à dieta que adotara com o intuito de, no dia do casamento, se apresentar tão elegante e formoso como a sua Carochinha; os sete anões e a pura e doce Branca de Neve, resgatada ao envenenamento por não gostar da maçã tipo Alcobaça oferecida pela madrasta malvada – a sua predileção sempre fora para a maçã reineta, mas a madrasta, por desinteresse óbvio, desconhecia os gostos da Branca de Neve; o Soldadinho de Chumbo, de apenas uma perna, e a sua Bailarina de Papel, salvos, in extremis, do fogo por uma inesperada e fortíssima rabanada de vento, instigada, provavelmente, por Éolo, a pedido de Vénus ou de outra qualquer deusa defensora dos apaixonados; e a Bela Desadormecida, graças aos problemas de foro alérgico, que conseguiram sobrepor-se à maldição da fada ressentida, por não ter sido convidada para o batizado, e mantiveram a Bela afastada dos fios e dos fusos, nos quais, pressupostamente, se deveria ter picado ao completar dezasseis anos.

Viviam todos relativamente perto uns dos outros e as suas vidas corriam em perfeita e idílica harmonia. Para que tudo fosse absolutamente perfeito ajudava o lugar, repleto de frondosas árvores de fruto, riachos cantantes, flores exuberantes, vegetação abundante e, sobretudo, um sol tão radioso e benemerente que era incapaz de queimar e ocupava os seus dias a afagar, com os seus raios doces de luz e calor, aquele lugar e os seus habitantes. Nada faltava. E, além disso, o tempo passava devagar, tão parcimoniosamente devagar que parecia ter estagnado e ninguém se sentia envelhecer.

Porém, como mesmo nas histórias que se querem de encantar, a felicidade tem algumas interrupções, nem que seja para que se possa usufruir plenamente do seu retorno, um dia aconteceu o que nenhum dos habitantes jamais ousara sequer imaginar. A primeira a ter conhecimento do ocorrido foi a linda Carochinha, pois ninguém era tão madrugador quanto ela.

De facto, a linda Carochinha, à noite, ajeitava as cortinas às bolinhas do seu quarto, de modo a que fosse acordada todas as manhãs pelas primeiras carícias do seu amado Sol. Desta maneira, podia ter a casa a brilhar e as refeições totalmente confecionadas quando o seu João Ratão se levantasse, não fosse ele ter uma recaída gastronómica e fosse espreitar a panela enquanto esta ainda estivesse ao lume.

E o Sol nunca se fazia rogado e, anos e anos a fio, destinava os seus primeiros raios à Carochinha, que lhe agradecia, todas as manhãs, com um sorriso rasgado, uma felicidade contagiante e uma determinação e uma energia incomuns. Aliás, houve vezes em que o Sol se atrasou na sua tarefa de iluminação e aquecimento globais por estar encantado a olhar para a labuta feliz da Carochinha. A Carochinha punha-se linda, arejava, varria, lavava, costurava, cozinhava, jardinava, de uma maneira tão alegre e esfuziante que o Sol se lhe rendia.

Porém, nesse dia fatídico, de madrugada, à hora em que, infalivelmente, o Sol a acariciava, a Carochinha acordou com um arrepio de frio a percorrer-lhe o corpo todo. Abriu os olhos espantados e não conseguia ver nada. Estava escuro como breu. Levantou-se, abriu as cortinas, perscrutou o céu à procura do Sol e nada, nem um raiozito para anunciar a sua vinda. Confirmou as horas no relógio luminoso de bracelete cor-de-rosa que o João Ratão lhe oferecera no último aniversário – não porque o relógio fosse necessário à Carochinha mas sim porque ela era muito coquete – e, pela primeira vez, decidiu acordar o seu dorminhoco marido àquela hora.

O João Ratão acordou estremunhado, assustado e sem perceber por que razão a sua Carochinha o estava a acordar, se o dia ainda nem sequer tinha nascido – é óbvio que o João Ratão tinha uma vida regalada e nunca tinha acordado tão cedo.

Porém, após as explicações um tanto ou quanto atabalhoadas da Carochinha, João Ratão, que não queria ver triste a sua amada, nem parecer fraco aos seus olhos, exclamou:

– Carochinha, se o Sol não veio, foi porque teve um grande impedimento e nós temos de o ajudar. Agasalha-te, vamos acordar os nossos amigos e descobrir o que aconteceu ao Sol.

A Carochinha e o João Ratão vestiram-se apressadamente, tendo muitas dificuldades em encontrar agasalhos suficientes, pois até aí nunca tinham precisado deles. João Ratão pegou na pequena lanterna que tinha na mesa de cabeceira, para, de vez em quando, durante as noites de insónia, poder atacar a despensa sem que a Carochinha desse por isso. E, seguidamente, saíram os dois titubeantes de casa, pois não conseguiam habituar-se à escuridão – escusado será dizer que a Carochinha estava tão preocupada com o desaparecimento do Sol que nem se lembrou de perguntar ao marido porque tinha a lanterna em seu poder e, obviamente, que o João Ratão não entrou em explicações.

Ainda era muito cedo quando chegaram à casa da Branca de Neve e dos sete anões. Tão cedo que nenhum dos anões se tinha ainda levantado para ir trabalhar e dormiam todos placidamente, assim como a Branca de Neve, que estava cansada de cuidar esmeradamente dos seus desarrumados companheiros. O primeiro a acordar foi o Mestre, que apareceu à porta estremunhado e ainda de barrete na cabeça. Imediatamente a seguir o Dunga, que, sendo o mais pequeno, tinha a fama de ser o mais rápido. E, logo atrás do Dunga, o Zangado, com cara de poucos amigos, mas a ser consolado pelo bonacheirão do Feliz, que não acordara com as batidas na porta mas com as resmunguices do seu colega. De seguida, quase ao mesmo tempo, apareceram, com ar assustado e ainda estremunhados, o Dengoso e o Atchim. Este último, com a agitação, até se estava a esquecer de espirrar. Finalmente surgiu a Branca de Neve. Claro que não havia reboliço que acordasse o Soneca, que continuou placidamente no mundo dos sonhos, bem aconchegado sob os cobertores, entre os lençóis de algodão. O Soneca só acordou quando o Atchim, a pedido do Mestre, decidiu desviar a roupa da sua cama com os seus potentíssimos espirros: –  atchim…atchim….atchim…..atchim…..atchim…..

Porém, nem o Soneca reclamou quando saíram todos em fila, agora atrás do Mestre, a quem o João Ratão, por reverência – e, cá para nós, também por alguma falta de coragem – cedera o seu lugar, a caminho da casa do Soldadinho de Chumbo.

O Soldadinho de Chumbo, habituado a cenários de conflito, com capacidades de estratega militar, a sofrer de stresse pós-traumático e, por isso, sempre em estado de alerta, ouvira há muito o burburinho que o imprevisível e voluntarioso grupo fazia. E, mesmo  não sabendo do que se tratava, preparara-se para defender, se fosse preciso dando a outra perna ou a própria vida, a sua Bailarina e a sua casa. Mas nem a sua preparação militar o dispusera para o que os seus olhos viram, quando reconheceu a constituição do grupo que se aproximava. Incluído, numa enorme mancha de luz, dada pelos capacetes luminosos com que os sete anões protegiam as cabeças, o grupo era formado pelos seus amáveis vizinhos, transformados em guerreiros em busca do Sol.

 A mancha de luz tinha, de resto, um aspeto deveras estranho, com os anões a brandir no ar a panóplia de instrumentos que usavam no dia a dia do seu trabalho na mina de metais preciosos: pás, picaretas, brocas, serras, martelos, talhadeiras, tesouras, os quais, apesar de adequados ao tamanho dos seus utilizadores, ao serem bramidos no ar, não deixavam de ter um aspeto atemorizador. Atrás seguiam a doce Branca de Neve, a formosa Carochinha e o mimado João Ratão, que só pensava na caminha quentinha que deixara para trás – como já percebemos, nem nos contos de encantar somos todos voluntariosos e corajosos.

Assim que conseguiu compreender as explicações um tanto ou quanto atrapalhadas e apressadas do invulgar grupo incandescente, o Soldadinho de Chumbo pegou, com facilidade, na sua graciosa Bailarina de Papel, apoiada apenas numa perna, e juntou-se aos seus vizinhos, a caminho do palacete da Bela Desadormecida.

A Bela Desadormecida, mesmo não precisando de ser despertada por um beijo provindo de um amor verdadeiro, andava a namoriscar um garboso Príncipe das redondezas, o qual estava junto dela naquela manhã. Àquela hora, os dois já tinham dado pelo desaparecimento do Sol, encontrando-se predispostos e apetrechados para o irem procurar e para o trazer de volta custasse o que custasse. Por isso, assim que avistaram o grupo, perceberam qual era a sua missão e juntaram-se a eles sem quaisquer delongas.

Sempre guiados pelo Mestre, a quem seguiam e obedeciam com uma confiança quase cega, andaram durante horas e horas esquecidas, investigando lugares, caminhos, recantos, grutas, covis, barracões, casas, palacetes, palácios e nem uma pista, por mais pequena e incipiente que fosse, que indicasse o paradeiro do Sol ou as razões porque deixara de brilhar naquela manhã.

Sentiam-se todos exaustos, sobretudo o João Ratão, que nunca, nunca mesmo, tinha caminhado tanto tempo sem descansar e sem poder comer mais nada do que alguns frutos silvestres que ia recolhendo pelos arbustos semeados pelos caminhos. O João Ratão jurava que tinha tanta, mas tanta fome, que sentia a barriga coladinha às costas.

Porém, os seus companheiros de caminhada estavam tão centrados na busca do Sol e tão preocupados com a infrutuosidade dessa busca que ignoravam as suas lamúrias. Para além disso, há muito que chegara ao conhecimento de todos a fama de preguiçoso e comilão do João Ratão, que, pobrezito, fosse pela fome que dizia ter ou pela impreparação física, desta vez, estava mesmo a fraquejar – porém, infelizmente, mesmo no tempo e no lugar imprecisos desta história, há juízos de valor que se colam à pele das personagens.

Contudo, a verdade é que o João Ratão não fraquejaria sozinho, se não houvesse uma pausa na demanda, pois quem estivesse atento ao inusitado grupo perceberia a exaustão em que parte dos seus membros se encontrava. O Soldadinho de Chumbo, apesar de toda a preparação militar que tivera, já não estava sequer a conseguir suportar o ínfimo peso da sua Bailarina de Papel. O Soneca, para continuar a caminhar, precisava constantemente de ser motivado pelos espirros que o Atchim já tinha também dificuldade em dar. A Bela Desadormecida, quase completamente adormecida, não por ação da roca de fiar, mas pelo cansaço extremo, estava a ser, literalmente, carregada ao colo pelo seu garboso e valente Príncipe.

Por isso, o Mestre, a quem a urgência da tarefa não tirara o poder de observação e a sensatez, ordenou que se fizesse uma pausa.

Assim que a pausa aconteceu, sem forças para procurarem abrigo, aproveitando apenas a cúpula de uma ´milenar árvore frondosa que beirava o caminho, os membros do inusitado grupo, incluindo o Rezingão – que, fazendo jus ao seu feitio, afirmava a viva voz que não estava cansado – atiraram-se todos para o chão, num bailado que parecera combinado, tal era a similitude dos gestos. E, imediatamente a seguir, caíram todos num sono tão profundo que nenhum deles ouviu os roncos dos seis anões com o sono mais estrepitoso dos habitantes daquele bosque. De facto, naquela família invulgar, apenas o Dunga e a Branca de Neve não ressonavam e, em situações de menos cansaço, também apenas eles, pela força do hábito e da juventude, teriam conseguido dormir com tamanha orquestra sinfónica a acompanhá-los. Porém, esta situação não era uma situação normal, como normais não foram os pesadelos que povoaram o sono de cada um dos membros do grupo.

No inquieto mundo do sono da Carochinha, o Sol tinha desaparecido para sempre e, com ele, tinham desaparecido também o seu João Ratão e a sua vida tranquila e feliz. Por isso, no seu pesadelo, a Carochinha via-se completamente só, no meio de uma estrada escura e infindável, a gritar louca e desesperadamente pelo seu João Ratão, obtendo por resposta apenas o eco da sua voz:

– Joãoooooo Ratãoooooo, Joãooooooo Ratãoooooo. Joãoooooo Ratãoooooo, Joãoooooooo Ratãooooooo…

A Branca de Neve, num sono contraído pelo medo, ouvia cada vez mais próximo o riso estridente da sua madrasta, que se lhe delineava, desdentada e feia, ostentando na mão a maçã reineta mais apetitosa que alguma vez vira e repetindo desdenhosa e malevolamente:

– Se fui capaz de fazer desaparecer o Sol, o que serei capaz de fazer com as criaturazinhas que pensam que te protegem?

– Se fui capaz de fazer desaparecer o Sol, O que serei capaz de fazer com as criaturazinhas que pensam te protegem?

– Se fui capaz de fazer desaparecer o Sol… Se fui capaz…

Os sete anões, unidos pelo sentido de proteção e pelo amor à sua princesinha, viveram um pesadelo comum – nem a capacidade do Feliz ver sempre o lado bom da vida, nem a capacidade de sono do Soneca ou a inocência do Dunga foram suficientemente fortes para mitigar o pesadelo. Nele, os sete anões confrontavam-se com o facto de não terem conseguido encontrar o Sol nem defender a Branca de Neve do seu destino. A rainha má, através de um feitiço poderosíssimo, tinha conseguido enfraquecer o Sol, absorvendo a sua energia, que utilizou para neutralizar os sete anões e vingar-se da beleza e da bondade de Branca de Neve. Por isso, no pesadelo que os sete anões jamais tinham ousado imaginar, estes choravam derrotados e desolados a morte da Branca de Neve.

Para a Bela Desadormecida e para o seu garboso Príncipe, a culpada do desaparecimento do Sol só podia ser a malévola feiticeira que, ressentida por não ter sido convidada para o batizado da Princesa, lhe lançara a maldição de ser picada, mortalmente, pelo fuso de uma roca de fiar, no dia do seu décimo sexto aniversário. Por isso, no pesadelo de ambos, o grupo tinha encontrado o Sol, prisioneiro desta feiticeira, desfalecido numa sala recôndita de um lugar longínquo, cheia de fusos com vida própria, que revolitavam atrás do grupo, fazendo acreditar que todos os seus membros sofreriam a maldição que um dia fora apenas da Princesa.

O Soldadinho de Chumbo enredou novas personagens, nos seus costumeiros pesadelos de militar com stresse pós-traumático, encontrando-se no campo de batalha com os seus vizinhos e a sua Bailarina de Papel, numa noite escura como breu, iluminada a espaços pelo chispar das balas, que iam, uma a uma, matando cada um dos seus companheiros de grupo – pobre Soldadinho de Chumbo, vencido pela impotência e pela dor, no pior pesadelo da sua vida.

A Bailarina de Papel, perdida no meio da escuridão e do medo, estendia os braços suplicantes para o seu Soldadinho de Chumbo e, mesmo no pesadelo que quase a sufocava, sentia os seus passos e sabia que ele chegaria para a resgatar de todos os perigos. O coração da Bailarina de Papel mantinha a esperança, mesmo quando pesadelos inimagináveis para ela invadiam o seu sono – o poder do Amor faz destas coisas.

No pesadelo do João Ratão, como não podia deixar de ser, dada a sua propensão para a comida, havia fome, muita fome, pois João Ratão sabia que, sem o calor e a luz do Sol, os mantimentos escasseariam e a sua Carochinha não teria a mesma predisposição para cozinhar para si. Por isso, sonambulando, balbuciava baixinho várias palavras de lamento:

– Que será de mim se o Sol tiver desaparecido para sempre e a minha Carochinha não cozinhar para mim?

– Que será de mim? Que será de mim? Como subsistirei desnutrido e infeliz?

Foram, portanto, um descanso sem descanso, as parcas horas de pausa decretadas pelo Mestre com o objetivo de recuperação de forças para prosseguirem a caminhada em busca do Sol desaparecido. Porém, foi importante terem parado e terem sido confrontados com os seus medos durante o sono, porque isso deu-lhes novo ânimo para a procura que, imaginavam, seria longa e muito difícil.

A primeira a despertar foi a Carochinha. Até aqui nada de invulgar, uma vez que a Carochinha tinha fama de madrugadora. O que não foi normal num lugar em que o Sol estava ausente foi a Carochinha ter despertado com a sensação do afago do calor do Sol no lado direito do seu rosto. Por isso, com a alma a saltar de esperança e sem acordar os seus companheiros, nem mesmo o seu João Ratão, perscrutou o céu escuro e pareceu-lhe ver, na linha do horizonte que os seus olhos abarcavam, um pedaço de Sol envergonhado, a enviar-lhe um beijo de despertar por entre as nuvens.

 – O Sol, o Sol! Vejam! Vejam! Ali! Ali ao fundo! Vejam, vejam! O Sol! O Sol! – gritou, um tanto ou quanto eufórica e descontroladamente a Carochinha, pondo -se em pé de um salto só.

Os seus companheiros de busca saltaram todos como que impulsionados por uma mola – todos não, o Soneca enroscou-se mais em si próprio e continuou a dormir placidamente –, gritando também a uma só voz:

 – Onde!? Onde!? Onde está o Sol, Carochinha!? Que a escuridão é atroz e nós não vemos nada!

E bem perscrutaram todos atentamente o horizonte, mas sem nada vislumbrarem, nem mesmo quando o Mestre, sempre atento, focou a sua lanterna no ponto para onde se dirigia fixamente o olhar da Carochinha.

Depois disto, obviamente, nenhum deles acreditou na Carochinha, interpretando a sua visão do Sol como uma miragem impulsionada pelo desejo e pelo estado de torpor no momento de acordar. Porém, também nenhum deles teve coragem de a contrariar. Até porque a Carochinha ganhou ânimo, energia e alegria, os quais acabaram por contagiar todos os outros. O Rezingão parecia mais bem-disposto e o Soneca acabara por acordar com o burburinho e com renovada determinação.

Deixando-se contagiar pela esperança, o Mestre, numa decisão solitária, imprevista, espontânea e, um tanto ou quanto, imponderada exclamou:

 – Carochinha, a partir de agora, serás tu a nossa guia! Leva-nos na direção em que viste o Sol!

A Carochinha, que, teimosamente, ainda sentia a carícia do beijo do Sol na face, não se fez de rogada e assumiu o comando do grupo. Os restantes membros, uns mais incrédulos e descrentes do que outros, mas todos a precisarem de acreditar num caminho, aceitarem a decisão do Mestre. Só o Rezingão, recuperando a cara de poucos amigos, fez uma tentativa para questionar a opção do Mestre. Porém, um ataque de espirros, muito conveniente do Atchim, acabou por silenciá-lo.

Assim, lá partiram todos para nova caminhada em busca do Sol, com a coquete Carochinha ao comando, seguida imediatamente pelo vigilante Mestre, que continuava a sentir-se responsável pelo grupo.

A Carochinha assimilou de tal maneira o seu novo papel no grupo que impressionava a todos pela convicção com que indicava a direção a seguir. Até o Rezingão se lhe rendeu, embora, para não dar o braço a torcer, mantivesse a habitual cara de poucos amigos.

– Agora por aqui, agora por ali. Agora por acolá. Agora será preciso atravessar este riacho. Subir aquele declive. Passar por baixo daquela ponte. Perscrutar aquela gruta. Entrar naquele casebre. Perguntar àquele transeunte. Escalar aquela parede. Escrutar aquele fosso…

Era como se a Carochinha tivesse dedicado toda a sua vida àquela missão.

E assim foi durante horas e horas, até que alguns dos membros do grupo caminhante começaram a dar sinais de cansaço.

Como habitualmente, o primeiro a dar mostras de estar quase a claudicar foi o João Ratão, que, desta vez, talvez por deferência para com a Carochinha, não verbalizou o seu enorme cansaço. Porém, este não passou despercebido aos outros membros do grupo, a maioria tão exaustos quanto o João Ratão. Mas, como nenhum deles queria dar parte de fraco, centraram a sua atenção no comportamento do João Ratão, na esperança  de conseguirem  ter uma desculpa alheia para fazerem uma pausa.

Olhavam todos em redor em busca de uma clareira simpática para se deixarem abater mais uma vez, quando o Soldadinho de Chumbo, que tinha bom ouvido e estava vigilante como sempre, ciciou, para não ser escutado fora do grupo:

 – Chiu, chiu, atenção! Atenção! Fiquemos em alerta! Estou a ouvir não sei bem o quê! Um animal a correr!? Alguém a correr na nossa direção!? Pode ser o inimigo! O ladrão do Sol! Preparemo-nos para a luta!

– Ou para fugir, se o inimigo for demasiado forte para nós – tentou balbuciar o João Ratão.

Porém, o olhar reprovador de todos os outros, incluindo o da sua amada e coquete Carochinha – sobretudo esse – fê-lo fechar a boca ainda mais depressa do que a abrira, deixando a frase por completar.

Optando por diminuir a luz das lanternas dos capacetes e, com as pás, as picaretas, as brocas, as serras, os martelos, as talhadeiras e as tesouras em riste, o grupo predispôs-se a esperar o que aí víria, expectante e em silêncio – se não contarmos com o som do bater dos corações de muitos dos seus membros.

Pouco a pouco, o som do que parecia ser um animal a correr tornou-se audível para todos, não demorando muito até perceberem que uma figura, que mal se distinguia na noite escura, vinha em direção ao grupo, envolta numa nuvem de poeira.

Ainda a maioria deles estava a tentar perceber quem seria a figura que se recortava na noite, quando o João Ratão gritou:

– Fujam, fujam todos, que é um lobo que aí vem!

– Um lobo!? O Lobo Mau!? O dos porquinhos!? – exclamaram todos, quase em uníssono.

– Sei lá qual é o lobo! Mas todos os lobos são maus. Têm fileiras de dentes medonhos, têm sempre fome e não são nada esquisitos com as ementas. E a carne de rato não é assim tão diferente da carne de ovelha, da carne de porco ou da carne de outro animal qualquer, pois não? – retorquiu o João Ratão, dando, imediatamente, corda aos sapatos.

Demonstrando ser mais corajosos e mostrando também confiança na sua superioridade numérica, os restantes elementos do grupo não se mexeram do sítio onde estavam. Com o Mestre novamente ao comando – nenhum cavalheiro deixaria uma Senhora enfrentar um lobo, muito menos o Mestre, que era um Senhor –, esperaram, pacientemente, que o lobo se estacasse.

 Assim que isso aconteceu, o Mestre enfrentou o lobo, perguntando-lhe: – Que lobo és tu?

Enquanto esperavam pela resposta que o Lobo demorava a dar, pois estava demasiado ofegante para isso, todos o olharam com os olhos cheios de genuíno espanto, perguntando-se:

– Quem seria este Lobo? Não podia ser o Lobo que queria, a todo o custo, comer os três porquinhos e a avozinha do Capuchinho Vermelho e que tinha povoado de terror o sono infantil de cada um deles, noites e noites sem fim!? Não, isso não era possível!

 De facto, a figura que ali se apresentava, mostrava um Lobo completamente exausto, com a língua de fora, um corpo extremamente magro, com a pelagem rara, de tom acinzentado, os dentes espaçados, porque alguns deles já lhe tinham caído, e os olhos tristes, tão tristes como se estivessem cansados de chorar a perda de um grande amor. O Garboso Príncipe da Bela Desadormecida, que era apaixonado pel’Os Lusíadas de Luís de Camões, lembrou-se imediatamente do gigante Adamastor, aquela figura medonha e aterrorizadora, que acabou por se desfazer em lágrimas, diante de Vasco da Gama, ao contar a sua história de amor incompreendido e não correspondido pela bela e sedutora ninfa Tétis, abrindo, assim, sem saber, caminho para que Vasco da Gama pudesse chegar à Índia.

Finalmente, ainda combalido, mas já um pouco refeito do enorme esforço despendido, o Lobo respondeu ao Mestre:

– Sou o Lobo fingido e malvado, mais conhecido por Lobo Mau, inventado há séculos, para povoar histórias que, nunca percebi bem porquê, ainda hoje chamam de encantar, como a história do Capuchinho Vermelho e a história dos Três Porquinhos. Fui criado para ser receado e incompreendido e para nunca ser amado por ninguém. Fizeram-me senhor de um apetite voraz e atribuíram-me um talento especial para ludibriar, assoprar e bufar. Porém quem sai sempre mal das histórias sou eu. Lembram-se da história dos Três Porquinhos?

 – Claro que se lembram – prosseguiu o Lobo sem esperar pela resposta. Sou eu, esse lobo.

 – Sim, lembro-me, claro. Quando a minha avó me lia a história dos Três Porquinhos, eu tinha muito medo, mas suportava-o porque sabia que, no final, o Lobo Mau era sempre vencido pela sorte ou pela esperteza dos três porquinhos – disse a Carochinha, que começava a sentir alguma compaixão pelo Lobo.

– Pois é – disse o Lobo. Nunca consegui levar a melhor com o Brincalhão, o Dançarino e o Prático e, para além de ser amplamente gozado pelos três, que não se cansavam de cantar, «Quem tem medo do Lobo Mau?»; «Quem tem medo do Lobo Mau?» – durante a noite, ainda oiço essa lengalenga na minha cabeça –, hoje tenho problemas de saúde, por me ter queimado na água a ferver, cheiinha de terebintina, que o Prático preparou para me receber assim que descesse a chaminé da sua casa de tijolos – acrescentou o Lobo, já com uma lágrima ao canto do olho.

– Não chores, Lobo. O que querias que os porquinhos fizessem, se os querias comer? – retorquiu a Carochinha.

 – A culpa é dos meus criadores. Podiam ter-me inventado sem me dar este apetite voraz ou ter-me humanizado através da vivência de um amor feliz. Tudo é possível nas histórias de encantar – disse o Lobo.

 – Lá isso é verdade – voltou a responder a Carochinha, já que os restantes membros do grupo, espantados com o teor do diálogo, nada ousavam dizer.

 – Pois é, é mesmo. Como eu gostaria que, numa das muitas histórias em que entrei, alguém me tivesse cuidado e tivesse gostado, só um pouquinho, de mim.

Mas, ó Lobo, não estejas tão desalentado! Ainda estás a tempo de fazer amizades e encontrar alguém para amar e cuidar e que também te ame e te cuide, como eu amo e cuido do João Ratão – prosseguiu a Carochinha, perguntando imediatamente de seguida:

 – Mas, ó Lobo, o que estás a fazer aqui? Pelo que contaste e pelo teu estado um tanto ou quanto debilitado, não creio que tenhas vindo atrás de nós para nos comer? Ou estás a tentar enganar-nos, como fizeste com a pobre da avozinha do Capuchinho Vermelho?

– Se vieste enganar-nos é melhor desistires da ideia, porque nós daremos cabo de ti – ripostou o Zangado, acentuando deveras a habitual cara de poucos amigos e esgrimindo no ar, com destreza, um martelo.

– Enganar-vos? Eu? Não. Longe de mim. Não quero comer ninguém. Perdi o apetite, depois de uma vida inteira de desaires. Aliás, há muitos anos, que me tornei vegan e me libertei da tirania de comer fosse o que fosse do reino animal.

– Tornaste-te vegan? Que coisa mais estranha. Nunca ouvimos falar de um Lobo vegan – disse, entrando no diálogo, a Branca de Neve.

– Vegan? O que é essa modernice? – perguntava o Rezingão ao Mestre. Hoje em dia, já nem os lobos são lobos – rematou, sem mostrar a mínima paciência para esperar pela resposta.

– Se já não comes carne, então porque corrias tanto atrás de nós!? – perguntou desconfiado o Soldadinho de Chumbo.

– Porque reparei que andam à procura do Sol e eu sei onde o Sol está escondido – disse o Lobo, com assertividade.

– O quê!? Sabes o quê!? – Quase gritaram, todos ao mesmo tempo.

          – Sei onde o Sol está escondido. Se acreditaram em mim e nas minhas boas intenções, sigam-me, por favor. O esconderijo do Sol não é longe daqui.

          Como todos hesitavam em seguir o Lobo, mais pelo espanto da revelação do que por receio, pois o aspeto físico do Lobo era deveras esclarecedor, o Mestre deu ordem de marcha e lá partiram todos novamente em busca do saudoso e benemerente Sol. Inclusive o João Ratão que, percebendo de longe a calmaria, se tinha aproximado do grupo, pé ante pé, sem que nenhum dos seus companheiros tivesse dado conta disso.

Com a compreensão que acreditava ter lido nos olhos de muitos dos membros do grupo, o Lobo Vegan, por vontade própria, ganhara ânimo e segurança, guiando com mestria todo o grupo pelos caminhos. Nem parecia o mesmo Lobo desalentado que, não muito tempo antes, tinha estacado ofegante à frente do grupo – o que vem provar que os sentimentos de bem face aos outros os tornam mais fortes.

Não tinham caminhado durante muito tempo, quando o Lobo Timoneiro fez sinal para que se fizesse silêncio, pois aproximavam-se do lugar onde, pressupostamente, estaria o desaparecido Sol.

Por isso, foi em religioso silêncio que todos o seguiram a partir daquele momento, tendo chegado rapidamente a uma porta gigantesca, muito bem camuflada por vegetação abundante.

– É possível que atrás daquela porta esteja o Sol!? – interrogavam-se todos ao mesmo tempo, questionando-se também sobre quem teria sido o culpado ou culpados pelo aprisionamento do Sol naquele lugar, pois, embora o Lobo lhes tivesse dito que vira o Sol sozinho e tranquilo, nenhum deles acreditava que este estivesse ali fechado, sem poder dar luz e aquecer o mundo, por vontade própria.

Estavam todos perdidos nestes pensamentos, quando a porta se abriu repentinamente, deixando passar, através da abertura, uma intensa vaga de calor e de luz, que os fez estacar repentinamente.

Quando finalmente se adaptaram um pouco à luminosidade e ao calor do lugar, decidiram ganhar coragem e atravessar a enorme porta, munidos de todas as armas que os tinham acompanhado durante a caminhada, não fossem encontrar lá dentro os ladrões do Sol. E, se depressa o pensaram, mais depressa o fizeram.

Nada os fizera prever o que passaram a presenciar, quando se habituaram à claridade e ao calor do espaço a que a gigantesca porta dera acesso. O espanto foi tal que todos deixaram cair no chão as ferramentas de defesa que traziam e não conseguiam articular qualquer palavra. Sentado num enorme cadeirão, do qual nenhum dos presentes era capaz de desviar o olhar, encontrava-se o Sol com o sorriso mais radioso e maroto que algum deles alguma vez vira, um copo meio cheio de aguardente velha numa das mãos e o livro de Aristóteles, Ética a Nicómaco, na outra. Ao lado, em cima de uma mesa redonda, encontravam-se dispersos vários livros de Aristóteles com o mesmo título e três garrafas de aguardente velha, duas delas vazias.

– Finalmente chegaram! Não pensei que demorassem tanto! Já vou na terceira leitura desta Ética e já despejei duas garrafas de aguardente velha. Estou até um pouco tonto, pois os meus 4,6 mil milhões de anos de idade já não me permitem estes excessos – disse o SoI, de rompante.

E, como ninguém conseguia articular qualquer palavra, prosseguiu:

– Acredito que a caminhada vos tenha sido agradável, que se tenham conhecido melhor e que se tenham ajudado uns aos outros, porque sem partilha, sem cumplicidades, sem esforço comum nunca teriam chegado até mim. Tenho razão ou não tenho?

Não obtendo ainda resposta, continuou:

– Neste momento, devem estar todos a pensar que o excesso de leitura filosófica, de aguardente, de luz e de calor, para além dos 4,6 mil milhões de anos, me devem ter dado a volta à cabeça e não digo coisa com coisa. Não é verdade?

Ficando mais uma vez sem resposta, o Sol não se conseguiu remeter ao silêncio:

 – Mas não se preocupem. Ainda não enlouqueci. E ainda vos hei de iluminar e aquecer durante pelo menos mais 4, 6 mil milhões de anos. Só depois poderei descansar. Por isso e para tornar mais divertida e feliz a minha longa vida, gosto de chegar aos objetivos que me proponho de maneira, digamos, talvez, original, fora do comum. E agora estaria na hora de perguntarem:

– Foi para te divertires que nos pregaste um susto de morte e nos fizeste percorrer esta distância toda?

– Vá, questionem-me? Zanguem-se comigo ou alguém vos roubou a língua pelo caminho? – provocou o Sol.

Depois de fazer a última pergunta, o Sol predispôs-se a beber outro copo de aguardente e a reler mais umas páginas do livro de Aristóteles até que alguém recuperasse do estado de letargia em que se encontrava e dissesse alguma coisa. Porém, como ninguém conseguia recuperar do choque do espanto e responder ao Sol, apesar de este perceber, pela expressão facial da Branca de Neve, que ela estava a entender perfeitamente onde ele queria chegar, o Sol decidiu explicitar melhor as razões do seu desaparecimento repentino:

– Como observador experiente e privilegiado da natureza humana – afinal sou a estrela central do sistema solar e tenho acumulado 4,6 mil milhões de anos de experiência –, tenho vindo a perceber que, cada vez mais, os seres humanos se afastam uns dos outros, mesmo os que têm o privilégio de viver num lugar paradisíaco e cheio de oportunidades como este. A Carochinha tem vivido em exclusiva dedicação ao seu João Ratão. O João Ratão tem vivido obcecado pelas refeições. O Soldadinho de Chumbo tem sido subjugado, no seu dia a dia, por más lembranças e pelo sentido de proteção para com a sua Bailarina de Papel. A Bailarina de Papel tem dedicado todo o seu tempo a confortar o Soldadinho de Chumbo. A Bela Desadormecida e o seu Príncipe só têm tido olhos um para o outro. Os sete anões vivem, desde há anos, exclusivamente para o trabalho e para proteger a sua Branca de Neve. A Branca de Neve tem-lhes retribuído o cuidado e tem dedicado a sua vida a mimá-los. O pobre Lobo tem vivido para se redimir das maldades que fez ou quis fazer e, apesar de há anos, não procurar intimidar nem magoar ninguém, vive triste e só. Todos vocês, apesar de habitarem perto uns dos outros, passam meses sem se verem, sem conviverem, sem se entreajudarem, dedicados apenas ao núcleo familiar mais restrito.

Por isso – continuou a dizer o Sol – , para alterar este estado de coisas, decidi desaparecer repentinamente, pois tinha a certeza de que o meu desaparecimento seria a única maneira de vos juntar, de vos unir, em torno de um propósito, e de vos fazer crescer, uma vez que – apontando para o livro de Aristóteles – «O homem é homem, porque vive em comunidade». Nunca mais se esqueçam disto. E, agora, vou subir novamente para o sistema solar, porém, não deixarei de estar vigilante. Cada um de vocês pode pegar num livro igual ao que tenho na mão e regressar a casa, tal como eu o farei – terminou o Sol, ao jeito de um qualquer entertainer de um comum programa televisivo diário.

Assim que o Sol se calou, uma estrondosa salva de palmas ressoou na gruta. Mas o Sol não continuou sentado na poltrona para a receber pois, de repente, sem que ninguém do grupo tivesse percebido como desaparecera, o Sol já não estava lá. Da presença do Sol só restavam algum calor e alguma luz, bem como o cadeirão, a mesa redonda, as três garrafas de aguardente, o copo vazio e o livro que lia momentos antes, abandonado, ainda aberto, num dos braços do cadeirão.

Quando abandonaram a gruta, o relógio com bracelete cor-de-rosa da Carochinha marcava doze horas e o Sol brilhava com todo o seu esplendor, como se nunca tivesse abandonado o sistema solar. Assim que sentiram na pele o conforto do calor dos raios solares, todos os membros do grupo olharam para o céu e, gratos ao Sol, sorriram. Este – tiveram todos a certeza – devolveu-lhes o cumprimento com uma piscadela de olho e o mesmo sorriso maroto que tinha quando o encontraram. Depois, houve cantoria e bailarico até o Sol se pôr, pois todos precisavam de descarregar a adrenalina que tinham acumulado durante os três dias em que procuraram o Sol.

Enquanto caminhavam rumo às suas casas, todos refletiam na lição que o Sol lhes tinha dado, prometendo cada um a si próprio que nunca mais se iria esquecer do seu vizinho, mesmo que este morasse um pouco mais distante. Combinaram-se programas comuns, visitas às casas uns dos outros, comemorações conjuntas de datas festivas, sessões partilhadas de leitura etc. etc. num imenso rol de boas intenções.

Porém, parece ser próprio da condição humana cair indefinidamente na repetição dos mesmos erros, apesar de sempre se pensar que isso jamais poderá acontecer. Por isso, à medida que se iam aproximando dos seus lugares de conforto, ou seja, das suas casas, cada um deles deu consigo a pensar na recuperação total e absoluta das suas rotinas habituais.

A Carochinha revia-se, mentalmente, a despertar com os afagos do Sol e a preparar, cuidadosamente, como sempre, as refeições do seu João Ratão. O João Ratão, por sua vez, até salivava, ao antecipar as iguarias que a sua Carochinha lhe prepararia, rememorando o melhor sítio para esconder a lanterna que, segundo ele, o salvaria de subnutrição certa durante as noites de insónia. O Soldadinho de Chumbo começava, pouco a pouco, a repovoar a sua cabeça com os fantasmas da guerra. Apercebendo-se disso, a sua Bailarina de Papel, só conseguia pensar em maneiras de o reconfortar. A Bela Desadormecida e o seu Garboso Príncipe não conseguiam deixar de sonhar com a viagem que fariam juntos e que fora adiada devido ao desaparecimento do Sol. Os sete anões, depois de terem vivido, no pesadelo, a morte da Branca de Neve, preenchiam a cabeça com maneiras de afastar dela, definitivamente, a madrasta malvada. Apenas a pura e doce Branca de Neve foi capaz de assimilar verdadeiramente a lição do Sol, resgatando o Lobo à solidão e à tristeza, com o convite que lhe fez para que este fosse morar consigo e com os sete anões.

Embora o grupo tenha tido êxito na demanda a que se entregara e o Sol tenha voltado a habitar o imenso céu azul e a iluminar e a aquecer aquele lugar privilegiado, regressando tudo à normalidade desejada, nesta história, foi o outrora Lobo Mau que teve, inesperada e extraordinariamente, o final mais feliz.

Lucinda Santos

17-11-2016

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UM CONVIDADO PARA JANTAR

de ANA ISABEL FALÉ

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Noite de pássaros soltos pelas encruzilhadas dos caminhos. E eu com um convidado para jantar. O vinho é frutado, daqueles cujas raízes beberam na aridez o doce arinto ou a essências pura das rosas e papoilas.  Odor persistente, trago frutado e “bouquet” aveludado, conforme se lê no rótulo. Arrasto a mesa para o lado da serra e ocupo-me a filtrar na escuridão o mistério das coisas por haver.
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Um pouco de requinte, penso eu, porque na raridade dos momentos se encontra a sua essência e, assim, viver com solenidade o presente é perpetuar rituais nunca havidos. Por isso, abro a garrafa um pouco antes e ponho-a a respirar imaginando-a ansiosa de ar, captando a brisa da serra e impregnando-se da espera em que me movo. Fico-me a contemplá-la como objeto que guarda em si toda a essência do futuro. No forno, uma carne sonhadoramente assada com ervas e aromas de outras eras. Estando tudo pronto, podia começar já o meu jantar. Mas o meu convidado ainda não chegou e eu estou naquela prega de tempo entre o porvir e o depois. Agora, ainda não aconteceu o que saboreio como desconhecido e essa incógnita amanhã deixará de o ser, passando à categoria de já vivido. Será talvez melhor imaginar do que viver, interrogo-me. Ah, sim, agora ainda posso imaginar caprichosamente o meu convidado, depois a sua imagem já ficará preenchida com traços incipentes ou talvez desarmónicos no conjunto… Nunca nada será melhor do que o vislumbre dos sentidos.
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Imagino-o a chegar, olhar expectante e ansioso, aguardando aprovação. Ou não. Olha sereno e seguro de agradar. Talvez nem isso. Olhar trocista, que acaricia. Sim, prefiro-o assim. Despirá a gabardina e eu tropeçarei com o bengaleiro na ânsia e atrapalhação de lho guardar. E ao chapéu também.
No limiar da aventura, não resisto ao apelo da garrafa e encho o copo com um toque de vinho para fazer a prova. Como ele porventura a faria, de olhos fechados, desafiando a imaginação, um trago solene que revele os segredos da terra e liberte a alma do vinho, prisioneira nesta garrafa. Tem de ter um extraordinário travo florido. E tem. No final, a alma sente-se aquecida e vulnerável com a subtileza do momento. Talvez seja o olhar dele que me põe rubra, contemplando-me como a um lírio na beira do rio, e eu sem desviar os olhos daqueles em que ancorei.
O meu convidado enche-me o copo com cortesia e eu, irremediavelmente ausente, raso um pouco a fantasia. Agradeço, provo e falo com suavidade. Talvez faça o elogio do vinho ou lhe lembre a volumetria da noite quando se respira a solidão. Depois ouço-o falar também, como num sonho. “Então?” E tudo ficou suspenso naquele “Então?”.
Então, fala-me agora dos teus sonhos. Ou, então, mais prosaicamente, quando vem a comida? Não sei, e por isso rio-me com garridice. Um riso tão fértil, como frágil e é nessa altura que ele diz “Ah, Poder rir, rir, rir, despejadamente, rir como um copo entornado!”. E eu fico a olhar o meu convidado que não sabe rir e as suas palavras são-me familiares, como se aquele momento já tivesse ocorrido em outros tempos. 
Os copos entrechocam-se sem querer e um leve roçar de pele ancorou de novo os olhares. Eu rio ainda e, agora, os nosso risos brincam genuínos no eco da casa, parca de mobília, com a serra a espreitar-nos, curiosa e cúmplice. Mas ele cala-se inesperadamente, firmando os olhos na garrafa e o meu riso suspendeu-se a meio da cascata. Que tens? Nada. Em que pensas? Em nada. “Pensar em nada é ter a alma própria e inteira”. Ah, digo eu. Enchemos os copos, agora melancólicos. “Estou só, diz-me, só como ninguém ainda esteve, oco dentro de mim, sem depois nem antes”. E eu? Antes de ti estava só, respondo-lhe, como tu estiveste antes de mim, oca por dentro, sem antes nem depois. 
“Temo, Lídia, o destino. Nada é certo. Em qualquer hora pode suceder-nos, o que nos tudo mude”. O que pode mudar-nos?  “A vida passa e não fica, nada deixa e nunca regressa”. Tenho apenas o agora que amanhã será futuro e o mais são “sombras das árvores alheias”. E eu sou árvore e quero ser sombra, digo-lhe. O que é mais importante do que o agora expresso neste breve enlace que nós somos? Ah, suspira, ele: “Vê de longe a vida, nunca a interrogues”. 
Como te chamas, perguntei-lhe. Conforme. Sou Ricardo aqui e agora. Mas vivem outros dentro de mim. Curioso, exclamo eu. Por que será que isso faz muito sentido em ti? “Não procures um sentido oculto nas coisas. O único sentido das coisas é elas não terem sentido nenhum”. Por exemplo, tem algum sentido o facto de eu estar aqui? Tem, respondo-lhe indignada. Invoquei-te, chamei-te à minha solidão. Ah, mas eu não pertenço a nenhum lugar. Só tu e este vinho são reais. Mas tu és real, ou fui eu que te inventei? Invocaste-me, o que é igual. “Os antigos invocavam as Musas. Nós invocamo-nos a nós próprios”. Curioso, disse eu, dir-se-ia que essas tuas palavras já antes estiveram dentro de mim… Ele sorriu com suavidade. “E que é o presente? É uma coisa relativa ao passado e ao futuro…” Ricardo, digo eu… Alberto. Foi Alberto, o materialista que falou. O poeta, digo eu.  Sorriso. “Não tenho ambições nem desejos. Ser poeta não é uma ambição minha, é a minha maneira de estar sozinho”. Mas agora estamos juntos. Sim. Vamos dar um passeio à beira de um rio qualquer? Propus. Não. Prefiro o rio da minha aldeia. “O rio da minha aldeia não faz pensar em nada”. Então fomos. 
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“Eterna verdade vazia e perfeita!” – diz-me – e a serra é um mar de axiomas que nos acenam das árvores milenares. E nós fomos. De mãos serenamente entrelaçadas à procura do último sortilégio no odor raro do arvoredo, agora embriagado de névoa. Desenlacemos as mãos, Lídia, parece-me ouvir, talvez no vento. Mas não. “O vento só fala do vento”.
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Eu sei. Nem é preciso ouvir o que já sabemos. Desenlacemos a noite, o olhar e a paixão… Estou cansado, diz-me, mas vamos. Não sabemos onde, porque amar “é a eterna inocência”. Mas vamos, em silêncio, na bruma de um olhar breve: “a única inocência é não pensar”, segreda-me. E a sua voz afagou as copas voluptuosas das árvores,  como se um lírio leve as tocasse…
Quando amanheceu e se desvaneceu o esplendor da noite, acordo no sofá, aos primeiros raios da manhã. Olho a serra em espanto e a primeira coisa que vejo é a minha garrafa que abri para respirar. Respirando, passou a noite toda e da mesa face à serra me fita intacta, intocada também a comida, mas, nota dissonante… uns óculos de aros redondos à sua beira, relíquia de uma noite que não aconteceu… 
Desde então fiquei menos só. O poeta vem sempre que o invoco. Os óculos? Guardei-os em memória do tempo em que um inesperado convidado me veio encher a noite de poesia, de vinho e de paixão. A garrafa? Deixei-a envelhecer e azedar, como eu. Ao respirar, liberta o sentir da terra enquanto eu liberto o meu.
É este o meu presente. E o que é o presente? Aprendi que é uma coisa relativa ao passado e ao futuro. 

Nota: 

Assinalaram-se com aspas as citações.
                                                                                                                     Ana Isabel Falé
                                                                                                             Fev. 2002

UM EPISÓDIO DE AMOR E OUSADIA

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Cheguei à escola há 29 anos, penso que no final do mês de setembro, por volta das 4 da tarde. Chovia torrencialmente, nem parecia setembro, e a carrinha que me transportava teve muitas dificuldades em percorrer a estrada esburacada e enlameada que permitia o acesso aos pavilhões.

Na véspera, dois homens ruidosos tinham-me preparado para a viagem, com gestos brutos e gastos de tão repetidos. Agarraram-me com força, embrulharam-me em mil e uma folhas de plástico com bolinhas barulhentas e enfiaram-me depois dentro de uma bafienta e escura embalagem de cartão. E, como se não bastasse, ataram-me ainda com força, com muita força, com uma corda, com a qual deram voltas e mais voltas em meu redor.

Durante a noite, pensava que me fragmentaria em mil pedaços tal era o estrangulamento e o calor que sentia. Durante a viagem, a sensação de falta de ar e de calor misturou-se a uma sensação de enjoo e eu julguei que jamais chegaria ao meu destino. Mas os meus medos não se concretizaram e, miraculosamente, acabei por chegar sem uma beliscadura!

Porém, o que vi, quando brutamente me libertaram da vestimenta viageira que trazia, fez-me pensar que tinha sido em vão o meu sofrimento. Depois de ter passado por espaços inóspitos, tinham-me descarregado, numa sala de um pavilhão, ao qual tinham atribuído a letra B. A sala era uma desolação. Não tinha mesas, nem cadeiras. Muito menos computadores, como hoje em dia. Apenas me esperava uma secretária tristonha abandonada no topo da sala ao lado de uma janela. Encostaram-me na parede ao lado da secretária e aí me abandonaram, por sinal mal apoiado, o que me fez continuar a temer pela minha segurança. Lá fora, a água que caía tornava ainda mais intransitável o lamacento local. O arvoredo que envolvia os pavilhões continuava a encher-se de vozes sibilantes. As poucas pessoas que ousavam penetrar no recinto escolar traziam estampado no rosto a inquietação. Como vim parar aqui? Repetiam quase em uníssono. A mesma pergunta fazia eu a mim próprio, olhando com complacência para a minha companheira de infortúnio.

Realmente os primeiros cinco dias foram atribulados. Na manhã seguinte, chegaram dois homens musculados que pegaram em mim como se fosse uma pena e me aparafusaram apressada e descuidadamente à parede. Ainda hoje, sinto que estou um pouco torto, descaído para o meu lado esquerdo. Porém nunca ninguém reparou neste pormenor, o qual não impediu que, ao longo destes 29 anos, me fosse enchendo de memórias. Eu próprio já não me veria direito. Como diria a avó do meu criador, «a gente aveza-se às coisas»!

Amiudamente, entravam e saíam muitas pessoas do meu e dos outros pavilhões da escola. Falavam alto umas com as outras, gesticulavam, riam, choravam. Nenhuma me dava muita importância. Sempre que entravam na minha sala, ignoravam-me a mim e à minha colega e indignavam-se com o espaço vazio que se abria à nossa frente.

A partir do quinto dia parou de chover. Nesse dia, acordei com os raios quentes do sol a acariciar a minha superfície lisa e escura. Olhei de soslaio para a minha colega do lado e achei-a menos melancólica. Até imaginei que me sorria. Pela primeira vez, gostei de estar aqui!

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No dia seguinte acordei muito cedo com o bulício que se fazia ouvir. E, quando ainda estremunhado, abri os meus olhos negros, vi entrar e sair da sala, em passos azafamados, muitas pessoas: homens, mulheres, e crianças. Traziam mesas e cadeiras, que iam dispondo em fileiras mais ou menos regulares à minha frente e à frente da minha colega secretária. Até ela, tinha ganho uma companheira para a vida, pois, encaixadinha no lugar que lhe era destinado, vi uma jovem e reluzente cadeira de madeira. Soube mais tarde, que os pais e os amigos da escola, ansiosos pela sua abertura, tinham conseguido que as fábricas da região e particulares lhes oferecessem o mobiliário para as salas de aulas. E foi neste dia, já noite fora, perante os rostos cansados e sorridentes de uma população que muito a desejara, que realmente nasceu a atual Escola Secundária Leal da Câmara.

Eu quase não conseguia ficar quieto com a expectativa do início das atividades letivas. Acho mesmo que, nessa altura, com o meu frenesim, terei acentuado a minha ligeira inclinação para o lado esquerdo. Quantos alunos entrariam na minha sala? De que idades? Como seriam? Como seriam os professores e as professoras? Portar-se-iam bem os alunos? Ou nem por isso? Os professores e as professoras seriam simpáticos ou austeros? Quem escreveria pela primeira vez na minha superfície lisa e escura? Que palavras iriam compondo a minha memória? Palavras felizes? Palavras magoadas? O que sentiria eu? Cócegas? Dor? Prazer? Enquanto esperara a minha distribuição, tinha ouvido, com expectativa e algum receio, muitas histórias dos meus antecessores mais velhinhos que esperavam pela reciclagem. Umas histórias muito felizes e outras menos felizes. Por isso, no momento em que a minha aventura estava prestes a começar, tinha alguma dificuldade em controlar as emoções.

Porém, não tive de esperar muito para que a escola ganhasse vida e as minhas perguntas começassem a ser respondidas. Creio que dois ou três dias depois da chegada do mobiliário, já em meados de outubro, a escola encheu-se de crianças, adolescentes e de homens e mulheres adultos, a maioria com ar muito jovem, que uma escola, nos arredores de Lisboa, plantada no meio do lamaçal, sem acessos, e rodeada de arvoredo sibilante não cativara a atenção dos veteranos do ensino.

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Eu e os meus companheiros de sala não poderíamos estar mais prontos para o início. Na véspera tinham-me limpo com cuidado e colocado, no suporte aos meus pés paus de giz de várias cores, que, modéstia à parte, me embelezaram, dando-me um ar de festa. As minhas colegas mesas e cadeiras tinham também sido limpas e perfumadas, tal como as janelas e o chão. Todos reluzíamos sob os raios solares. A nossa sala tinha ainda ganho um caixote do lixo, cuidadosamente forrado com um saco de plástico.

Às oito horas e dez minutos, no meio do reboliço que sentia no hall de entrada, pressenti o ruído de uma chave na fechadura da sala em que me encontrava. É agora, respira fundo – disse para mim mesmo. Olhei para os meus parceiros de sala e senti que os seus pensamentos seriam muito parecidos com os meus. Estávamos estáticos, em sentido, e podíamos ouvir o silêncio. A fechadura cedeu por fim e, seguido por um grupo de intrépidos jovens, entrou na sala um professor. Um professor? Admirei-me eu, e creio que os meus companheiros também, já que corria pela escola que a maioria dos professores eram do sexo feminino, e todos nós, nos nossos recônditos sonhos expectantes, víamos entrar pela primeira vez na sala uma mulher jovem, bela e, talvez enigmática como a Mona Lisa. Mas não, entrou um professor, nem jovem nem velho, nem alto nem baixo, moreno, de cabelos castanho-escuros e a barba por aparar um dia ou dois. Descobri depois que era professor de Ciências Físico-Químicas. Mais uma desilusão! Que memórias poderia iniciar em mim um professor de Físico-Químicas?

Desviei o olhar do professor, que se dirigiu com passo apressado para a minha colega do lado, na qual pousou com gestos firmes a pasta e o livro de ponto, e fixei-me nos alunos, que procuravam com o olhar o melhor lugar. Foi giro perceber que o conceito de melhor lugar varia consoante a personalidade de cada aluno. Para alguns, que descobri depois serem essencialmente os mais rebeldes, os mais difíceis de controlar e de conquistar para o saber, o melhor lugar são as carteiras bem no fundo da sala. Para outros, os mais tímidos, o melhor lugar encontra-se nas carteiras do meio da sala de aula, lugar em que ouvem e veem relativamente bem o professor e a minha pessoa, mas em que não estão expostos. Para outros ainda, os que são conhecidos por «marrões», quanto mais perto do professor melhor, por isso, para estes, o melhor lugar são os lugares da frente, nos quais não pode passar despercebido ao professor o dedinho no ar, sempre na azáfama de responder. Porém, como acabei por descobrir, nem sempre as análises habituais batem certo e a vida não para de nos surpreender.

Depois de estarem todos sentadinhos, com ar expectante, o professor apresentou-se. Chamo-me Aristides Afonso e sou o vosso professor de Ciências Físico-Químicas. E mal acabou de proferir estas palavras dirigiu-se para mim e, rapidamente, em letra não muito elegante, mas firme, escreveu na minha superfície o seu nome e a sua disciplina. Foi tudo tão rápido, que nem tive tempo para pensar ou para ter receios. No momento da escrita, afinal não senti nem cócegas, nem dor, nem grande prazer, senti apenas um ligeiro e agradável arrepio e a consciência ainda, um pouco inconsciente, de que, com o registo daqueles dois nomes incomuns, iniciara verdadeiramente a minha história.

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Nesse dia, as aulas decorreram num ritmo vertiginoso e acabei por descobrir que a minha desilusão inicial por receber um professor de Físico-Química não fazia sentido. Os professores e as professoras (a propósito, a segunda professora que entrou, para meu deleite, possuía o sorriso enigmático da Mona Lisa) repetiam, em cadência própria, explicações e instruções idênticas que pareciam não ter fim. A minha memória encheu-se de nomes e mais nomes: Aristides Afonso, Físico-Química, Catarina Lisboa, Português, Lígia Gonçalves, Matemática, Madalena Garcia, Inglês, Sérgio Garrido, História, Francisco Rebelo, etc. etc. etc. E nem mesmo a professora de Português, a tal do sorriso enigmático à Mona Lisa, trouxe poesia àquele dia!

Ao mesmo tempo que ia gerindo as sensações da escrita em mim, ia observando o aglomerado efervescente de miúdos e miúdas que tinha à minha frente. Foi logo nos primeiros dias que reparei no Leonel, um miúdo do 8.º A, com 16 anos franzinos, cabelos ruivos rebeldes e olhos azuis questionadores e um tudo-nada arrogantes. Atirando negligentemente a mochila para o chão, sentou-se sempre nas carteiras do fundo da sala. E, na maior parte das aulas, não se dignou registar um único apontamento no caderno. Eis um dos alunos que vai dar problemas, pensei eu. Porém, talvez para me mostrar que os preconceitos em relação aos alunos nem sempre têm razão de existir, nesse dia, o Leonel portou-se bem em todas as aulas, tendo protagonizado dias mais tarde uma das memórias mais bonitas dos meus primeiros tempos na escola, como passarei a contar.

Na segunda semana de aulas, reparei que o Leonel, o qual, por insistência dos professores, já escrevia qualquer coisita nos cadernos, passava as aulas com os olhos postos nas costas e na trança da Mariana, uma das alunas da primeira fila de carteiras. Mariana tinha um aspeto bem mais robusto do que o Leonel. Era alta, morena e apanhava os longos cabelos numa trança. E sobretudo era uma aluna muito inteligente e aplicada, daquelas de que todos os professores gostam, sempre com a resposta pronta na ponta da língua e com vontade de fazer coisas. Os cadernos da Mariana poderiam ser vendidos aos colegas como sebenta, tal era o cuidado com que ela registava todas informações que os professores procuravam transmitir nas aulas. Obviamente que a Mariana, que nunca se virava para trás, ignorava completamente o Leonel. O Leonel parecia não se importar com isso e continuava, aula após aula, com o olhar fixo nas costas da Mariana.

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Uma segunda-feira, de madrugada, corria já o mês de novembro, estremeci ao sentir abrir-se de mansinho a porta da sala de aula. Quem seria aquela hora, se a Escola estava completamente adormecida e eu nem sequer tinha ouvido ainda os passos miudinhos do senhor Guilherme, o primeiro funcionário a chegar todas as manhãs?! Olhei para os meus companheiros da sala de aula. Ninguém dera por nada, todos pareciam dormir o sono dos justos, depois da limpeza que a senhora Manuela lhes tinha feito na noite anterior. Sustive por momentos a respiração, perscrutei a escuridão, fixei o olhar na porta e esperei expectante e receoso, para não dizer em pânico, que algo ou alguém surgisse. Felizmente, não tinha herdado do meu tio, o quadro mais velho do liceu Pedro Nunes, a sua tendência para acreditar em monstros e habitantes de outros mundos e de outras dimensões! Mas, para dizer a verdade, confesso que não estava lá muito à-vontade!

A porta continuava a abrir-se de mansinho, como se quem a abrisse não quisesse perturbar o meu sono e o dos meus companheiros. No momento em que a porta estava suficientemente entreaberta para deixar passar fosse quem fosse, como que por milagre, um facho de luz incidiu numa cabeleira rebelde que espreitava para dentro da sala de aula, seguida de um corpo franzino que eu começava a conhecer muito bem: o Leonel. O receio, quase pânico, deu lugar à curiosidade extrema. Que faria ali o Leonel de madrugada? Como conseguira a chave para abrir a porta? O que lhe aconteceria quando, de manhã, os professores e os funcionários descobrissem que o Leonel tinha entrado, à socapa, na escola e na sala de aula?

Absorto nestes pensamentos, vi o Leonel entrar cuidadosamente na sala de aula, fechar a porta com um cuidado quase religioso, o que me fez pensar que o rapaz não vinha com más intenções e que teria decerto uma boa razão para tal comportamento. Logo de seguida percebi que o Leonel vinha, contornando as mesas e as cadeiras, direitinho a mim. Que poderia querer de mim o miúdo?

Quando finalmente chegou perto de mim, parou a olhar-me com os seus olhos azuis que eu caracterizara como um tanto ou quanto arrogantes. Porém nessa madrugada não foi arrogância que li neles, mas coragem e determinação. Esteve muito tempo absorto, pelo menos a mim pareceu-me muito tempo. Durante esse tempo, voltei a olhar para as secretárias, para as cadeiras e até para o caixote do lixo que se encontrava encostado na parede ao fundo da sala de aula, mas tudo continuava na mesma, todos dormiam placidamente.

De repente, o Leonel tirou do bolso das calças alguns paus de giz de cores diferentes e começou a encher de traços a minha superfície lisa e escura. Era a primeira vez que o Leonel desenhava em mim, aliás, era a primeira vez que alguém desenhava em mim. Aos poucos, fui-me aconchegando ao ritmo dos traços agradáveis do Leonel sem sequer procurar perceber o que é que o Leonel desenhava. E o que o Leonel desenhava, de modo exemplar, era um caminho ladeado por árvores verdejantes percorrido por dois caminhantes de mãos dadas. Bastou-me ver a trança caída nas costas do caminhante feminino para perceber quem eram de facto as duas figuras: A Mariana e o Leonel.

De seguida, o Leonel, com uma caligrafia de fazer inveja a muitos colegas das carteiras das primeiras filas, escreveu: Mariana, gosto de ti! Sentou-se depois na carteira na qual habitualmente se sentava a Mariana e ficou bastante tempo a olhar para o desenho. Parecia querer adivinhar o que sentiria a Mariana, quando de manhã, visse aquela declaração anónima no quadro. Depois, ainda pé ante pé, voltou a dirigir-se para a porta e saiu da sala, tão cuidadosamente como entrara.

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Eu fiquei excitadíssimo. Apetecia-me muito acordar os meus colegas. Mas nada fiz. Continuei a saborear o desenho, esperando pacientemente os passos do senhor Guilherme que adivinhavam o início de mais um dia de trabalho. Não conseguia deixar de imaginar como reagiriam ao desenho, de manhã, os habitantes da sala, esperando sinceramente que ninguém o ousasse apagar antes de a Mariana o ver.

O tempo demorou a passar, mas o início das aulas acabou por chegar. Por sorte a primeira pessoa a entrar na sala de aulas naquela manhã foi a professora de Desenho, A «stora» Rita, que ficou espantada a olhar para a perfeição que preenchia praticamente todo o quadro. Também os alunos que iam entrando faziam um intervalo no rebuliço para olhar para o quadro. Um deles de repente gritou: Mariana, tens um apaixonado!

A Mariana, que ainda não tinha olhado para o quadro, pois entrara, como sempre, com os olhos postos no seu lugar, levantou os olhos, olhou para o quadro e ficou vermelha que nem um tomate. Porém não disse nada e sentou-se direitinha no seu lugar, pronta para mais um dia de aplicação, não sem, de vez em quando, olhar de soslaio, como quem não quer saber, para o quadro. Até as raparigas aplicadas gostam de receber declarações de amor, embora ela não fizesse a mínima ideia de quem teria sido a autoria.

O autor do desenho entrou na sala com o estilo do costume. Como de costume também, sentou-se na cadeira e deitou negligentemente a mochila dos livros para o chão, só tirando de lá o material da aula quando a professora o admoestou. Ninguém imaginaria que tinha sido ele o autor do desenho que ainda enchia o quadro, pois a professora não tinha tido coragem para o apagar.

Eu, por detrás da roupagem que furtiva e talentosamente o Leonel me oferecera, procurava no Leonel indícios da sua aventura noturna, que, pelos vistos, não teria consequências de maior, pois a professora, amante das artes, era um pouco despistada, e nem pensou como teria ido o desenho parar ao quadro à primeira hora de aulas da manhã. Para além de bom desenhador, o Leonel era o mestre do disfarce. A não ser o olhar orgulhoso que eu, de vez em quando, o via lançar ao quadro, nada o ligava aquele desenho, a não ser claro o olhar que ele fixava nas costas de Mariana. Mas os seus colegas das filas traseiras estavam demasiado ocupados com a sua distração para repararem nisso e a Mariana nunca olhava para trás.

Em Maio desse ano, um dia, às 8 e 10 da manhã, vi entrar na sala de aula, precisamente na aula de Desenho, o Leonel e a Mariana de mãos dadas. Não sei como tudo aconteceu, nem se a Mariana alguma vez descobriu que o Leonel era o autor do desenho que uma manhã espantou a sala de aulas do 8º A. Sei que fiquei feliz. Afinal eu, um quadro negro e liso, um pouco torto, fui a única testemunha de um grande acontecimento. E nem me importei que, durante um certo tempo, os meus companheiros de sala de aula me olhassem com sobranceira desconfiança sempre que contava a aventura noturna do Leonel. Até porque sinto ainda hoje que, a partir daquele dia, o Leonel me passou a tratar com outra reverência. Afinal eu fora a única testemunha da sua grande ousadia.

Como é fácil de imaginar, já vivi milhares de histórias nesta sala de aulas. Tenho tantas memórias que é muito difícil apagarem-me. Às vezes, os funcionários esfregam-me com tanta força, que tenho vontade de gritar de dor. Não o faço, porém, não vá, por alguma magia, alguém ouvir o meu grito. Mas as histórias que se sucederam (talvez um dia ainda conte mais alguma)  nunca me fizeram esquecer a determinação e a coragem do Leonel.

Lucinda Santos

16-11-2015

Ilustração: Tatiana Oliveira

 

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