CARTAS AOS ESCRITORES

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Luana Bento nº 14 11ºH4

Literatura Portuguesa 2016/2017

Projeto individual de Leitura – Teatro

Amor de Anjo – Marta Freitas 

Cara escritora,

Dirijo-me a si pelo mesmo modo que contatou comigo, através do papel, em que cada palavra contém o peso do mundo.

A sua obra, que funciona como crítica social, demonstra direitos que pessoalmente também defendo.  Amar é amar.  Apenas precisamos de entender a naturalidade do amor para nos tornarmos pessoas melhores.

Senti uma grande empatia ao ler o seu livro, visto que defendemos as mesmas ideias.

Na minha opinião, um bom livro é aquele no qual nos podemos rever e este foi o caso. Penso que cria uma sensação de conforto e compreensão, quando vemos escrito, com palavras de outrem, o que também passava pela nossa mente e, principalmente, quando se refere a um tema que cria grande tumulto, como o da homossexualidade.

Até nos dias de hoje é preciso ter muita coragem para publicar livros sobre o tema, visto muita gente não achar que é correto, sendo que provavelmente deve receber muito feedback negativo devido a isso. Mas a parte boa de escrever um livro que causa controvérsia, deve ser, também, poder ver que as pessoas não estão indiferentes ao tema da obra.

Achei esta obra muito acessível e, na minha opinião, devia haver mais como esta no mercado: aborda um tema complicado, apresentado vários pontos de vista sobre o mesmo assim, torna-se mais fácil educar as pessoas sobre a naturalidade do amor e a forma como este as pode transformar para melhor, quer seja homossexual ou não.

 

Carta ao escritor Almada Negreiros

Honorável José Sobral de Almada Negreiros,

Escrevo-lhe sobre a sua obra dramática Antes de começar.

Esta obra, para mim, foi-se tornando cada vez mais interessante à medida que a ação se ia desenlaçando.

Para mim, este texto relembra-me muito o meu tempo de criança, apesar de ser uma crítica à sociedade e a temas mais intensos, como o que é a vida e o medo do desconhecido, estarem subentendidos na sua obra.

Acredito que todas as pessoas, quando são crianças, têm o seu próprio mundo e, como se costuma dizer, veem-no de forma diferente. Para mim, esse mundo era, como aprendi recentemente com Thomas Morus, uma Utupia, onde as minhas imaginações não passavam disso mesmo, a expressão dos meus desejos mais fantásticos e impressionantes.

Tal como aparece na sua obra, quando o “Homem” diz que a Boneca parece estar viva, na minha infância também sentia o mesmo, em relação a certas bonecas que tinha com a única diferença que estas são de porcelana e não são realmente brinquedos. Quando era mais nova, imaginava que os bonecos, objetos e outros brinquedos se podiam mexer e acredito que existem muitas pessoas que, se calhar, pensaram o mesmo. Mas, apesar de tudo, esta obra, na minha opinião, é dedicada ao público mais “maduro”, já que a peça possuí e transmite sentimentos e lições que os mais novos ainda não entendam.

Sendo você, Almada Negreiros, um escritor do modernismo, conseguiu criar uma peça intemporal e que, muito sinceramente, se reflete no coração de toda a gente que a terá lido.

Como sou uma pessoa que vive no presente século XXI e você, no passado século XX, julgo que os seus pensamentos ainda refletem o mundo.

Agradeço profundamente a experiência e as horas que passou as escrever esta obra, e outras tantas, contribuindo com o seu talento, para o crescimento do património português.

Carolina Almeida

 

Carta ao Escritor Álvaro Magalhães

9.11.16

Senhor Álvaro Magalhães,

Queria agradecer-lhe por ter escrito a obra Enquanto a Cidade dorme. Este é realmente um livro que me fez regressar à minha infância.

Este seu livro está escrito de maneira acessível e direta, destinada a um público infantil, mas mesmo assim cativante para qualquer grupo etário.

Senti-me enfeitiçada durante a minha leitura, quase como se estivesse mesmo no ‘’outro mundo’’ ao pé do anão Martim, do Rui, da Ana e de todas as maravilhosas personagens que conheci durante esta aventura.

Houve vários momentos que me tocaram, mas o momento que teve mais influência em mim foi sem dúvida o confronto entre o Rui e a Eva, no qual o tema da morte, que é muito recorrente neste livro, surge. A forma como o senhor mostra que, por vezes, as coisas, para serem realmente boas, tem de acabar é muito tranquilizante, pois todos nós temos alguns receios no que toca à nossa própria mortalidade. Ninguém sabe ao certo o que acontece quando morremos, e para algumas pessoas, que passaram a sua vida inteira a trabalharem para poderem ser a melhor versão de si mesmos, o facto de esse esforço todo parecer ser em vão é desconcertante. Será que vale lutar para construirmos a nossa própria identidade se, no fim de tudo, ela desaparece quando morrermos?

O senhor mostra-nos através de Eva que a morte é necessária para o ser humano. Eva nunca morreu, mas também não está viva. Todos os seus familiares e amigos já faleceram, e por isso não há ninguém para a recordar. Mesmo que pareça jovem, Eva não é a mesma rapariga que foi antes de entrar no ‘’outro mundo’’. A sua personalidade foi distorcida pela solidão que sente devido ao facto de não ter ninguém que compreenda a sua situação. De certeza que, se alguém se tornasse imortal, seria tão infeliz como a Eva, e perderia a sua identidade tal como ela.

Concluo esta carta agradecendo-lhe, mais uma vez, e pedindo-lhe para nunca parar de escrever, pois é sem dúvida um dos melhores autores portugueses do género infantil.

Mariana Pimenta

 

Carta ao Escritor Gil Vicente

Ilustre Gil,

     Escrevo-lhe esta carta devido à sabedoria que a sua obra Farsa de Inês Pereira me deu, a mim e a quem a leu, pois esta lição serve para todos.

Conseguiu mostrar-me as consequências que a ingenuidade, a ambição e o desrespeito nos podem trazer. Inês era uma moça rebelde disposta a fazer tudo para se livrar daqueles que a incomodavam, mas que na verdade só queriam o seu bem. Tal como Santo António repreendeu a ambição dos Voadores, que, sendo peixes, queriam voar alto e esqueciam-se que teriam que enfrentar os perigos do ar também, também o mestre nos mostrou que a ambição, este querer a mais, pode cegar-nos e destruir-nos de forma psicológica ou até mesmo física.

Desta rebeldia, não se escapa a sociedade de hoje em dia. A maioria dos jovens desvia-se para maus caminhos e vícios que os podem derrotar neste jogo que é a vida

Leitor deliciado,

Walter Kupassala

 

Carta ao Escritor Vladimir Nabokov

Caro Vladimir Nabokov,

Estou a escrever-lhe sobre o seu livro Lolita.

Primeiro, gostava de dizer que penso que a maneira como o livro está escrito é muito bela e quase que torna o livro inteiro um eufemismo. É fascinante como uma história sobre algo tão mau pode ficar a parecer bonita apenas pela linguagem que é usada para a escrever. Devido a tal, ao ler-se este livro pela primeira vez, se não se estiver com atenção e se não se possuir um espírito realmente crítico, este vai parecer uma bonita e trágica história de amor. Sente-se pena do protagonista Humbert, que fala de forma tão charmosa e como se fosse ele a vítima, embora ele seja verdadeiramente terrível. E é possível até ficar-se com um sentimento de indignação, quando Dolores foge de Humbert. Afinal, ele amava-a, certo? Mas não, ele não a amava e acho que é preciso ter-se atenção para perceber isso.

Ouvi dizer que foi mesmo intenção sua escrever este livro assim para mostrar às pessoas como elas podem tornar uma situação horrível em algo bonito e, até, desejável. E, realmente, é interessante e verdade, pois há pessoas que “fetichizam” este livro e que chamam ninfetas e lolitas a elas mesmas ou a outras pessoas e dizem que querem uma relação como a de Dolores e Humbert. Penso que isso talvez o possa irritar um pouco, certo? Porque não deve ter sido esse o seu objetivo ao escrever o livro.

Outra coisa que também já ouvi é que este livro teve como inspiração uma menina chamada Sally Horner, que foi raptada e violada várias vezes por um homem mais velho, enquanto viajavam pelos EUA. Acho que isto torna ainda pior e um pouco desrespeitoso, este desentendimento, se se pensar que a relação de Dolores com o padrasto é boa.

Devo admitir que a sonoridade das palavas é algo que me seduz, seja em que língua for, e, este livro não foi exceção. Por vezes, tinha de me lembrar que não era uma história de amor.

No entanto, por vezes, essa linguagem bela desaparecia e era possível ver-se a verdadeira natureza desta história. Lembro-me de certas passagens especificamente. Por exemplo, há uma em que Humbert diz que vai levar Dolores de volta para o quarto de hotel para “um breve coito antes do jantar” e isso fez-me sentir um pouco desconfortável. Também temos as partes em que ele fala do quão atraentes e apetecíveis outras “ninfetas” são, simplesmente porque as jovens estão a passar na rua. E, por último (das que me lembro agora), a parte em que Humbert fala em engravidar Dolores para que ele possa ter outra Lolita quando Dolly passar da idade de ninfeta.

Apesar de esta história não ser, na sua verdadeira natureza, bonita, adorei o livro. E isto porque é interessante e a linguagem é charmosa e cativante, foi um livro que me fez pensar e falar sobre ele com várias pessoas, pois tinha muito a dizer sobre este. Quis aprofundar o meu conhecimento sobre ele e descobrir mais. Devo dizer que foi realmente o livro que mais me marcou e que vou querer relê-lo no futuro, também em inglês, porque é a língua original em que foi escrito e tenho interesse em saber como a beleza da linguagem se traduzirá de uma língua para a outra.

 

   Cartas elaboradas pelos alunos de Literatura da Professora Teresa Lucas

 

 

 

Nesta página, serão publicadas as cartas que os nossos leitores e colaboradores nos fizerem chegar, destinadas aos seus escritores favoritos de todas as épocas, de todas as nacionalidades,  dos nossos dias ou de tempos idos, sejam poetas ou prosaístas, sejam aqueles que “da lei da morte se foram libertando” ou os que ainda hoje escrevem em cima da (nossa) realidade.

Serão cartas de amor e de ódio, ou de simples homenagem para mostrar a fixação da memória num universo ficcional e  a persistência das palavras que ultrapassam todos os tempos, todas as viagens, agora que o tempo é outro e as palavras são cada vez mais breves.

Como referência, fica aqui uma ligação para as melhores 10 cartas (de amor) que alguns deles escreveram.

http://homoliteratus.com/10-cartas-de-amor-de-grandes-escritores/

Ana Isabel Falé

 

CARTA A UM POETA DESCONHECIDO

Poeta, assim te nomeei, simplesmente, antes mesmo de saber que o teu nome antes de mim já era esse. Poeta, como o vento que ruge e canta, poeta como as estrelas que se ocultam e se mostram, poeta desde o centro do universo até ao canto mais negro da terra. Sim, soube logo que eras tu o poeta intemporal, aquele que nunca ninguém reverenciou com palmas e louros, o molde que molda um modo de sentir – o de poeta – aquele que caminha no fino corte da sombra, olhando de revés o mundo, como a um filho enjeitado.

Foi assim que te vi sentado nessa absoluta ausência de ti. Talvez não soubesses que tinhas nos olhos a poesia de um menino ao sol, quando a vida se suspende no faz de conta. Mas eu vi. Eras o poeta, misterioso e dócil, negro de dor e de amargura, mas embriagado de mar e amor, porque é assim que se tempera a palavra do poeta, com sal e ausência. Porque é assim que o poeta passa. Sem se saber. Mesmo assim, eu vi-te e eras tu o meu poeta.

Continuaste a sê-lo, depois de partires para o lugar do esquecimento, onde se abrigam os poetas que se perdem. Talvez te possa ouvir num pássaro ao entardecer ou nas mínimas manifestações do invisível. Mas nem assim te posso nomear. Foste apenas o poeta e, como todas as coisas efémeras, tu passaste e eu apenas te (re)conheci. Ter-me-ias como musa e mulher, mas… ao poeta não está destinada a dor de ser feliz…

A.S.

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