O Feitiço do Tempo

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No princípio é o vazio, ainda oculto na escuridão do quarto, depois é a vontade de fugir para dentro das mantas e ficar em alguma prega até o dia declinar. Depois é o discurso novo do dia – algo terá acontecido para este ser diferente. Levanto-me para a rotina dos comprimidos da tensão, o sumo de laranja e a pausa augusta (!) do café. Faço-o agora de chocolateira, turco e encorpado. Repousa e é coado.

As novidades do dia descrevem o mesmo círculo. Como no filme de Bill Murray, acordamos todos os dias no Dia da Marmota. Os locutores debitam os números do dia, as quedas da noite com as mesmas palavras e quase os mesmos números dos dias anteriores. Os políticos exercitam-se na corda-bamba entre a morte do corpo e a da economia. Não cresceram as laranjeiras, os pássaros não bicaram as cerejas do Fundão, não aumentaram os pastos, nem a chuva veio abençoar a primavera – nada – apenas a morte contada pelos dedos, os ninhos de morte desencantados, como vespeiros, e os utentes varridos para os quartéis. (Depois) o aumento da droga nos bairros do Porto, os presos que foram salvos da doença e lançados no desabrigo; os políticos orgulhosos das estratégias e dos gráficos retilíneos armados em planaltos e vales que ninguém quer percorrer e os refugiados no duplo refúgio da má sorte. (Depois) os caixões, as máscaras, os elmos de silicone, as tubagens, a GNR e as suas simpáticas interpelações ao condutor. Só resta a liberdade de fazer compras para comer. Podemos agora conhecer em detalhe todas as promoções dos supermercados e aproveitar para comprar muito para demorar  mais.

(Depois) vem o #Estudoemcasa. Imagino as televisões minúsculas e os olhos cansados ou miopes, como os meus, que não conseguem ler as opções da escolha múltipla, imagino a confusão dos garotos ainda verdes nas plataformas e na submissão de documentos, divididos entre o TPC do #Estudoemcasa e o da professora titular. Mas agora não é tudo TPC? Não é tudo feito em casa?

Alucino a meio do dia, bombardeada pelos alunos em todas as frentes informáticas, sms, mail, whatsapp, plataforma zoom, moodle, fotos de trabalhos manuscritos, ficheiros de iphone que não consigo abrir e a única coisa que me salva é o telefone; a voz repõe a claridade, os pais são gentis e estão ao leme. (Depois) as grandes ausências, os barcos da intempérie sem farol à vista. Os meus alunos são todos filhos de emigrantes. Tenho de lhes dar a mão (e encontrá-la?).

Fujo para o sol e deixo-me ficar a pastar com a vista o que as ovelhas do vizinho pastam com a paciente ruminação. A vida dos animais é muito fácil. Usam a voz para assinalar o espanto. Nós usamo-la para adormecer o espanto.

Demoradamente a palavra estratégia instala-se e eu deixo de ruminar sem nexo. Os animais não têm estratégias, têm um estímulo e uma resposta. Nós imaginamos o estímulo, inventariamos estímulos e desencantamos todas as respostas para tudo. Somos o homem e, assim, com as nossas estratégias já foram salvas algumas nações. Mas eu, neste momento, sinto que já só quero uma estratégia minha, para me salvar a mim mesma desta redoma em que vivemos. Mas, no fundo de cada um de nós, há uma disciplina incrivelmente humana e forte que nos permite sobreviver. É só ultrapassarmos o feitiço do tempo. Acordarmos para procurar no dia não a novidade, o prodígio, a tragédia mas a normalidade. Um simples caso de roubo no metro pode salvar-nos o dia. Qualquer notícia, qualquer fait-divers, qualquer arrojo de alguém que soube, melhor do que nós, resistir, pode salvar-nos o dia.

Somos refugiados dentro de uma cadeia nossa, viramo-nos para um silêncio viscoso e penetrante. Vivemos na primeira pessoa, como disse um sem-abrigo. a diferença é que temos teto e esse é que nos protege e prende. Precisamos urgentemente de inventar um manual de procedimentos para reaprender a difícil arte de ser feliz. A quem cumpre quebrar o feitiço do tempo? Oxalá pudesse fazer-se com exatas estratégias operacionais.

(Depois…)

Ana Isabel Falé

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