«Poesiem-se, por favor!»

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Haverá, com certeza, muitas razões para que o mês de fevereiro seja um mês especial. Desde logo, a sua duração, depois de um mês de janeiro longo e, em muitos casos, acrobático, em termos financeiros, depois dos excessos do Natal e do Ano Novo, passando pelas datas que nos exigem comemoração, como o nascimento do professor e anti-fascista Padre Alberto Neto, no dia 11 de Fevereiro, pelo dia dos namorados ou dia dos afetos, no dia 14 de Fevereiro, data da morte de S. Valentim, o bispo romano defensor dos apaixonados, ou, simplesmente, pelo facto de estarmos vivos, que é já motivo bastante para comemorarmos.

Porém, para mim, este Fevereiro de 2019 chegou-me com uma já, quiçá, «démodée» notícia (de 2016), mas que eu desconhecia e que me fez/faz mais feliz! É esta notícia que quero partilhar convosco neste editorial. Foi-me trazida pelo Daily Telegraph, que, divulgando os resultados de um estudo da Universidade de Liverpool, vem sustentar a importância que eu própria e tantos outros também damos à Poesia. (1)

Grosso modo, dizem os resultados do estudo que ler Poesia, sobretudo de autores clássicos como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, «estimula a mente e pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, já que afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre elas e a entendê-las noutra perspetiva». Mais ainda, dizem estes resultados que «a poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças».

Confesso que sinto que os resultados deste estudo, que não faço ideia se será muito ou pouco fidedigno, parecem ter sido feitos à minha medida, pois vêm reforçar o que, empiricamente, fui aprendendo à medida que me fui aproximando da poesia e fazendo dela um dos meus portos de abrigo: a poesia ajuda-me/ajuda-nos a refletir sobre as nossas vivências, sobre o mundo e sobre a vida, organiza-nos o pensamento, dá-nos saberes, reconforta-nos, faz-nos rir e faz-nos chorar, dá-nos esperança e acalenta-nos sonhos. Tanta, mas tanta coisa boa, muitas vezes, em tão poucas palavras! Por isso, a Poesia pode tornar-se um verdadeiro fascínio, um verdadeiro e incrível milagre. Para mim, tornou-se, sem sombra de dúvida. Quem me conhece melhor sabe isso e já não estranha quando abre um caderno meu dedicado a assuntos considerados sérios – e são com certeza – e encontra, no meio das notas de uma reunião, escarrapachada, a desfaçatez de um poema, a questionar, de certo modo, a utilidade das coisas, pressupostamente, úteis para o ser humano. Quem me conhece melhor sabe também que é comum libertarem-se dos mesmos cadernos poemas soltos, a darem voz aos poetas que me preenchem a alma e muito da própria vida, ou verem-me cair, absorta, no colo das palavras, em momentos em que a maioria das pessoas consideraria impossível fazê-lo. É assim, a verdade é que a Poesia liberta-me dos problemas do quotidiano, recarrega-me as baterias, recentra-me no essencial, devolve-me a vida numa outra dimensão, ou mesmo em outras dimensões, faz-me acreditar que tudo se resolverá, que há esperança, e faz-me sonhar. A Poesia dá-me mais calorias que uma híper e gostosa tablete de chocolate – e quem me conhece sabe também o quanto eu gosto de chocolate – e muda-me, logo ali, no momento em que a leio, nem que seja de fugida, e transforma-me, vai-me transformando mais e mais a cada dia que passa. Daí a sua essência miraculosa.

Sei que algumas das pessoas que me estão a ler perceberão esta força transformadora da Poesia, ou da Poesis, para fazer jus à origem latina da palavra e ao livro de Maria da Teresa Horta que nos descreve, de uma maneira soberbamente apaixonante, o universo poético e o efeito que este tem em nós. Outras, mesmo reconhecendo a beleza e a importância da Poesia, serão mais comedidas e pensarão, para consigo próprias, que estas minhas palavras se deverão a devaneios de professora de português. Outras ainda, provavelmente, deixarão de ler este texto, colocando-o a par de todas as outras coisas que consideram inúteis e infrutíferas para o desenvolvimento da humanidade.

Porém, porque acredito que são a proximidade e o envolvimento que nos fazem amar as coisas, sejam elas quais forem, deixo aqui o desafio de se transformarem em amantes das palavras e da Poesia, ou, pelo menos, de ficarem mais perto disso, lendo regularmente os nossos autores, viajando com eles no tempo e no espaço, na vida e nas emoções. Sob a égide das comemorações dos 100 anos de nascimento de Sophia de Mello Breyner e de Jorge de Sena, 2019 será o ano ideal para «poesiarmos» e para nos «poesiarmos». Como diria Sófocles, se não tentarmos, nunca saberemos se seremos capazes de atingir este patamar privilegiado do belo e do sublime («Tudo o que sonho ou passo,/O que me falha ou finda,/É como que um terraço/Sobre outra coisa ainda./Essa coisa é que é linda.», «Isto», Fernando Pessoa).

Por isso, «Poesiem-se», por favor!

Lucinda Santos

https://www.revistaprosaversoearte.com/ler-poesia-e-mais-util-para-o-cerebro-que-livros-de-autoajuda-dizem-cientistas/?fbclid=IwAR0mRthXBISkLBkFLDkDJASeg0XG_kvSIsrtny-7G4kLdgarEtep9gfg_yA

Ler poesia é mais útil para o cérebro que livros de autoajuda, dizem cientistas – Revista Prosa Verso e Arte

http://www.revistaprosaversoearte.com

Ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool.

 

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