Este é o editorial que fecha o mês (em vez de o abrir)

Janeiro, o mês de todos os recomeços, e outras coisas…

Todos os recomeços têm sabor a expectativa e a uma certa adrenalina, por não sabermos concretamente o que nos trarão. O mês de janeiro é, por excelência, o mês de todos os recomeços.

Depois da vivência de alguma euforia resultante do ambiente festivo da quadra natalícia e da passagem de ano, cá estamos nós, com alguma nostalgia, se os tempos anteriores forem felizes, ou com mil esperanças de mudança, se os tempos anteriores nos foram adversos.

Seja como for, fechadas as portas ao velho ano, aguarda-nos um novo, que, inevitavelmente, traz consigo o gérmen da mudança, o qual consegue plantar em nós as sementes da esperança e do sonho, fazendo com que o iniciemos com o friozinho na barriga próprio do enfrentamento de novas conquistas e da vivência de novas histórias, mesmo que essas conquistas e essas novas histórias sejam vividas com pessoas e em contextos que nos são familiares.

            Janeiro de 2019 iniciou-se com temperaturas baixas, de que a maior parte de nós não gosta, mas que são condição sine qua non do inverno, e sem chuva. Porém, como estamos em Portugal, país do sol e da luminosidade, janeiro tem-nos trazido alguns dias soberbamente soalheiros. Foi o que aconteceu, por exemplo, no último sábado, por praticamente todo o país.

            Tive oportunidade de ser aquecida por este sol único num passeio que eu e o meu marido fizemos, por Sesimbra, acompanhados de dois amigos de longa data, com quem não estávamos há muito tempo. Quero acreditar que este passeio sob um sol radioso e tendo como testemunha privilegiada o azul, absolutamente magnífico, do mar e do céu, seja um dos recomeços felizes deste ano de 2019. A companhia dos amigos é para «usar» e «abusar», embora o nosso mergulho, tantas vezes insano e anestesiante, na azáfama da vida quotidiana, nos faça secundarizar esta verdade.

            Outro recomeço feliz de 2019 será, com certeza, o reencontro com a escrita de Sophia de Mello Breyner e de Jorge de Sena, que festejariam 100 anos se a implacável voracidade esfomeada do tempo não nos tivesse privado deles. Não consigo deixar de sentir um certo sentimento de ilegitimidade da morte perante o desaparecimento de seres humanos que tanto deram à humanidade.

            Porém, sendo «bichos da terra tão pequenos» face à nossa miraculosa condição humana, como dizia o poeta maior que foi Luís de Camões, nada poderemos fazer contra a inevitabilidade da morte. Contudo, a verdade também é que muito podemos fazer na utilização do nosso livre-arbítrio, para vivermos a vida que achamos que devemos viver.

Por isso, durante este ano de 2019, podemos decidir que queremos viver paredes meias com estes dois poetas, ou, melhor ainda, podemos decidir escancarar-lhes a porta das nossas casas, para os deixar entrar definitivamente nela e em nós, nos nossos corações e nas nossas almas. Eu acredito que a literatura – sobretudo no que considero, subjetivamente, claro, ser a sua maior forma de expressão: a Poesia – é que torna possível a aceitação da nossa condição humana, que se resume, no fundo, à aceitação da vida e da morte e à aceitação da vivência plena do sentimento que nos possibilita encarar de frente uma e outra: o amor.

Entre muitos outros recomeços com que cada um de nós sonha, tantas vezes secretamente – e sonhá-los é o primeiro passo para que se concretizem – vamos, durante este ano de 2019, agradecer a presença dos amigos e a essência imortal da escrita e do amor. Termos o privilégio de o fazer também através do (re)encontro com as palavras de Sophia de Mello Breyner e de Jorge de Sena fará de 2019 um ano deveras especial.

Votos de um extraordinário ano de 2019!

Bem hajam!

Lucinda Santos

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