Equívocos

Vivemos num mundo de equívocos. Eu diria mesmo que as relações sociais e lutas de classes da história universal se baseiam em grandes equívocos, entre uns e outros, dos grandes para com os pequenos, dos pequenos para com grandes, propositadamente ou não, remendando  as vidas humanas com razões escamoteadas, com a ocultação, a mentira e o fingimento, na justificação de conflitos.

Não somos nós que escolhemos equivocar-nos, mas o equívoco instala-se com toda a desfaçatez na nossa vida e passamos a acreditar nele, até o descobrimos. Mesmo assim, nada nos garante que ficou por aí, sendo a clarividência muitas vezes embotada pela desinstrução deliberada.

E há tantos equívocos nos nossos dias, tanta comunicação que nos ilude para nos fazer pensar que a escolha é nossa, naquilo que nós julgamos escolher… Mas não é. O equívoco é uma das melhores armas de quem pretende manter o controle e de quem manipula e se esconde no equívoco sem ser jamais decoberto, salvaguardando-se de qualquer culpa, porque nós é que nos equivocamos e, portanto, vale aqui o aspeto reflexivo do verbo que raramente se faz acompanhar do complemento direto, culpabilizante: eu equivoquei os meus concidadãos. Não. O povo é que se equivocou. Eu é que me equivoquei e não o outro.

E assim, de equívoco em equívoco, aquele ou aquilo que equivoca mantém a sua ação subreptícia, agindo como lagarto ao sol mas sob a sombra das tílias. Pode passar uma vida inteira de equívocos, um após outro, e o equivocador pode nem ser descoberto, porque a sua ação nunca é claramente gritante e imputável, salvo algumas exceções em que a justiça apanhou alguns e, claro, foi tudo um equívoco, neste caso da justiça, elle même. Porém, também nós somos equivocadores, muitas das vezes nem nos damos conta disso.

E tudo, perdoem-me a simplificação generalista, é fruto da comunicação, na sua forma, processos, suportes e nas singelas implicaturas conversacionais que penduramos no discurso, aquelas formas de dizer que constituem o fosso entre o que pretendemos dizer sem querer dizê-lo, na pressuposição de que o outro nos segue e capta a mensagem.  E, como não partilhamos o mesmo universo de referência, muitas vezes o equívoco instala-se. Basta pensar na ironia.

Acrescente-se que a internet pode ser o maior equívoco que a Humanidade já viveu, se pensarmos que as tecnologias da informação e comunicação propiciam a aparência, o esconder da identidade, o assumir de posições descomprometidas, o insulto, o assédio. Ainda, no caso do ensino, as tecnologias conduzem ao caminho que se julga mais fácil e que nem sempre o é, o que também anda a equivocar-nos.

Seja qual for a razão, a verdade é que nada se recupera do tempo em que vivemos sob um equívoco, seja o contrato laboral que assinámos e não é como se esperava, seja o seguro de vida que não corresponde ao esperado, seja no trabalho, no desporto, na informação, nas relações entre amigos e até mesmo no amor.

O amor também nos equivoca. Resulta muitas vezes do engano, quando vemos no outro razões para nos encantarmos e, mais tarde, essas mesmas razões nos desencantam. Aliás. o outro é sempre para nós o maior dos equívocos. Tendemos a vê-lo sob lentes favoráveis ou menos favoráveis. E aqui, sim, fomos nós que nos equivocámos.

Podemos claramente concluir que o equívoco se produz na linearidade com que julgamos o que ouvimos e lemos. Muitas das vezes vemos o que queremos ver. Outras autoequivocamos-nos com o que outros nos dispuseram no prato. Logo, políticos corruptos deste mundo, jornalistas sem ética, namorados e conjuges extraviados, estão dispensados de qualquer culpa. Afinal, o equívoco começou em nós.

Ana Isabel Falé,

a pensar nos professores e nos equívocos da ação politica, escondida nos decretos-lei, neste passar de mão em mão uma decisão que não se quer tomar.

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