Um editorial sem tempo

«Os meus olhos imploram que gostem de mim»

Eládio Clímaco, Alta Definição

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Foi um testemunho de vida sensível e desassombrado a entrevista que Eládio Clímaco, muito generosamente, deu a Daniel Oliveira, no programa Alta Definição de 21 de abril de 2018. De voz embargada, Eládio Clímaco desnudou a sua alma durante os cerca de 40 minutos que dura o programa, falando das suas relações familiares, de como quem nos ama nos pode constranger para lá do limite do aceitável, dos seus amigos, poucos, mas bons e presentes na sua vida, dos seus amores, ou melhor, de um amor de juventude que nunca esqueceu, e, sobretudo do que foi a sua dedicação à televisão e de como lhe dói a sua ausência nela.

Uma entrevista que será um murro no estômago para muitos de nós, que, tantas vezes, tão levianamente, pensamos que quem aparece sorridente na televisão ou onde quer que seja tem uma vida pessoal invejável e que a obtenção da reforma nos livrará de todos os males do mundo laboral e nos tornará pessoas mais felizes.

Nenhuma destas acepções foi ou é verdade para Eládio Clímaco, como não será verdade para muitas outras pessoas. Pelas suas palavras, percebemos que nem a sua vida pessoal foi um mar de rosas, nem a reforma lhe trouxe a serenidade e o bem-estar que muitos aliam a esta fase da vida.

Profissionalmente, Eládio Clímaco foi muito feliz, mas percebemos que, em muitas ocasiões, terá sorrido por fora, mas chorado por dentro, pois, como o próprio confessou, a sua notável dedicação à televisão foi a maneira sábia que arranjou para colmatar as ausências da sua vida: a ausência de liberdade, a ausência da mulher amada, a ausência de filhos, a ausência da capacidade de dizer «não» e a ausência de nunca se ter colocado em primeiro lugar.

Também a reforma que chegou aos 72 anos, por imperativos da lei, não lhe trouxe serenidade nem bem-estar, pelo contrário, coartou-lhe os sonhos e o prazer de viver e invadiu-o de solidão e saudade, como o próprio verbaliza durante a entrevista. Com uma cabeça «sem idade», de «rapazola» até, como diz a dada altura da entrevista, Eládio Clímaco precisa do trabalho para que a sua vida continue a fazer sentido. E, ouvindo-o, é fácil perceber como ele ainda tem tanto para dar às pessoas que veem televisão. Por outro lado, é perturbante perceber que a sociedade atual dá tão pouca importância à memória, ao saber dos que desempenharam extraordinariamente as suas funções, deixando-se seduzir pelo ludíbrio da valorização quase exclusiva da juventude.

Vinte anos me separam de Eládio Clímaco. Não revi a minha preenchida vida pessoal nas suas palavras, felizmente. Mas ouvi-me em muito do que disse relativamente ao tempo da reforma. Poderia ter sido eu a dizê-las. Por ora, não me apetece a reforma. Não sonho com ela. Não a vejo como a panaceia para todos os meus sufocos profissionais. Precisaria, sim, de menos volume de trabalho, de mais tempo para refletir sobre as coisas e estar com as pessoas, de mais tempo para viver, para sonhar e para criar. Mas da ausência total do trabalho não precisaria. Nem eu, nem a maior parte das pessoas.

E, por estar convicta do que digo, atrevo-me a afimar que se, ainda hoje, o Eládio Clímaco trabalhasse, embora de acordo com a sua idade, a resposta que este daria à pergunta emblemática com que Daniel Oliveira dá por terminadas as suas entrevistas seria outra com toda a certeza. Pensem nisto!

L. Santos

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