Soneto do amor difícil

Do trabalho do cantor Tiago Bettencourt, “Tiago na Toca e os Poetas”, 2011, moldado em grandes textos de vários poetas portugueses, destacamos três textos: um soneto de David-Mourão Ferreira, um poema de António Ramos Rosa, lido por Dalila Carmo e musicado pelo artista, e outro de José Blanc de Portugal, também cantado e musicado pelo Tiago Bettencourt. A poesia e a música, juntas para nos (en)cantarem.

SONETO DO AMOR DIFÍCIL

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa…

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

David-Mourão Ferreira

NÓS SOMOS – António Ramos Rosa

Poema declamado por Dalila Carmo e musicado por Tiago Bettencourt

NÓS SOMOS de António Ramos Rosa

Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.

António Ramos Rosa
in Sobre o Rosto da Terra
Antologia Poética
Dom Quixote, 2001

“A Pedra” de JOSÉ BLANC DE PORTUGAL

 [Lisboa, 1914 ∞ Lisboa, 2000]

A PEDRA

Na terra dormente
a crista do monte
a espuma da onda
a lei figura.
É sua imagem
— acaso não.
Quem sabe?
Para além das coisas
oculta é toda a dor
como evidente
só meio silente
alto foge o céu.
A mão que morde…
José Blanc de Portugal

 

 Para ouvir mais poemas musicados:  AQUI

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1 Comment

  1. Grandes escolhas do cantor!
    Excelente divulgação do 100Letras! Será que as TV e as Estações de Radio farão algo parecido?

    Gostar

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