Editorial de Janeiro

Como 1, 42€ mudou o rumo do meu dia

 

Há pequenas ocorrências singulares capazes de alterar o rumo dos dias. Quinta-feira, dia 5 de janeiro, vivi uma destas pequenas singularidades que, se, per si, não alterou o rumo do dia que me estava destinado, foi, pelo menos, capaz de mudar a disposição com que o enfrentei.

Prestes a sair de casa para ir para a sessão matinal de fisioterapia, motivada por uma má-disposição do joelho esquerdo – cheia de má vontade, obviamente, que a fisioterapia integra sempre uma componente de exercício físico e quem me conhece sabe muito bem que exercício físico não é comigo –, descubro que não tenho moedas para colocar no parquímetro, de modo a pagar o lugar de estacionamento do carro. Vi e revi a carteira, despejei as bolsas laterais de todas as malas, vociferei contra a Câmara de Sintra, pedi ajuda a todos os deuses e… nada, ou melhor, nada que valesse realmente o esforço, apenas ia encontrando, perdidas aqui e ali, umas parcas moedas de 1 ou 2 cêntimos.

Com cara de poucos amigos e sentindo-me como se «o mundo inteiro se tivesse unido para me tramar», predispus-me a sair de casa sem moedas e, claro, a não pagar o dito lugar de estacionamento. Afinal, o que é que me poderia acontecer assim de tão grave!?

Absorta nos meus pensamentos, decidi sair de casa, mas o frio com que fui brindada, assim que pus um pé na soleira da porta, fez-me perceber que não tinha vestido nenhum agasalho. Como se a montanha do Evereste me tivesse caído em cima, tal era a minha agreste disposição, voltei para trás, diriji-me ao quarto e ao armário onde tenho os casacos arrumados. Que casaco vestir? O preto, pensei eu logo de imediato, pois não tinha a mínima paciência para estar a combinar cores e a cor preta «conduz» (agradeço este novo campo semântico do verbo «conduzir» à minha colega Maria João) com qualquer cor.

Porém, deparei-me com novo constrangimento. O casaco preto estava muito bem dobradinho na última prateleira do armário e, se lhe quisesse chegar com facilidade, teria de ir buscar o banco-escadote à cozinha.

Isso nunca! Pensei eu, convicta de que os deuses estavam mesmo todos contra mim, mas com a vontade obstinada de os afrontar pelo que me estavam a fazer. Por isso, repentinamente, sem pensar nas consequências para o joelho – o problema seria a dor que se seguiria, mas, como estava praticamente a ferver de raiva, a dor até se tornou suportável –,dei um salto, agarrei uma ponta do casaco e puxei-o até ele se desmoronar para cima de mim. Ao mesmo tempo que isso acontecia, ouvi tilintar qualquer coisa que, decerto, caíra dos bolsos do casaco. Olho no sentido do som e, surpreendentemente, vejo quatro moedas langorosamente deitadas no chão de madeira do quarto a sorrir para mim, uma moeda de 1 euro, duas moedas de 20 cêntimos e uma moeda de 2 cêntimos, a quantia suficiente para pagar o lugar de estacionamento do carro e, sobretudo, a quantia suficiente para me levar a sentir que, afinal, «Alguém lá em cima gosta de mim.». Quase instantaneamente, o meu mau humor matinal desvaneceu-se e eu saí de casa com um sorriso prazeroso nos lábios.

E foi com um sorriso prazeroso nos lábios que voltei a entrar em casa, já noite cerrada, pois, pela primeira vez desde que estou a fazer fisioterapia, senti o meu joelho melhorar um pouco e, apesar da falta de tempo que sempre tenho, consegui terminar o dia a reviver memórias felizes em casa da minha madrinha que festejava os 80 anos. Dá que pensar, não dá?

 

Que 2018 vos brinde com muitos momentos imprevisivelmente felizes…

 

 

Lucinda Santos

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