As pedras que nos sobrevivem

 

alentejo-safara-1986

Alentejo – Safara – 1986

 

É estranho estarmos num lugar – o mesmo lugar – e ele já não ser o mesmo. Verificamos que a matéria permanece, as casas, o empedrado das ruas, o desenho do horizonte, mas há algo que mudou e não nos damos logo conta do que é.

Estou num lugar onde o silêncio incomoda, quando dantes era ele que enchia as noites e se tornava sinal dos rumores do mundo. Era tão antigo, o silêncio na minha aldeia. Ouvia-se o vento a ralhar na chaminé e os passos das pessoas na calçada. Das tabernas vinha o rumor de vozes, havia sempre vozes a altercar nas tabernas e tínhamos uma em cada rua, com o seu canto a erguer-se sempre que, no apogeu dos copos de três, acontecia  a amizade.  “Castelo de Be-e-ja, subindo lá va-a-i! Tu fazes inveja – castelo de Beja – às águias reais.”  E quem os ouvisse sabia que estavam em paz com o tempo. E eu, criança nessa altura, sabia que os homens voltariam para casa alegres e titubeantes, para no dia seguinte voltarem a labutar ao sol. Era a ordem de um mundo que se desvaneceu.

Agora, vemos as cegonhas, ouvimos a passarada nas árvores do jardim, mas não há gente – aquela geração que enchia os lugares com as suas vozes arrastadas e sãs, tão sãs que o próprio tempo ficava a ouvi-las,  quando o tempo ainda tinha a amplitude da infância e era maior, demorado e permanente. Não estão cá, avós e pais, tios, vizinhos, primos, toda uma geração que cumpriu o seu tempo e outra que partiu para trabalhar onde pôde. E nós, os que voltámos e sempre demos por garantido o mundo que deixámos, reencontramos-nos com o lugar do passado – tudo igual, tão antigo e tão autêntico – mas tão silencioso e vazio…

O tempo trouxe a modernidade, a siderurgia, as fábricas, os escritórios, a febre do litoral, onde se empinaram cidadelas suburbanas de gente obreira. Os campos encheram-se dos rumores mecânicos que deixaram de mãos vazias os ceifeiros e as mondadeiras que cantavam ao sol. O tempo passou sobre todos. Levou muitos, deixou poucos.

E eu hoje ouço as ausências e o seu lugar vazio… “Tri-guei-ri-nha, tri-guei-ri-nha…”, ergue-se uma voz. Respondem as outras “andas na calma a canta-a-ar” e há um arco de eternidade suspenso na minha memória. Havia estas vozes que sabiam alinhar a concórdia universal, suspensa numa sílaba de partilha maior, em uníssono, como quando havia trabalho e sobrava suor para cantar.

A minha aldeia é como todos os lugares esquecidos do interior, mas aqui a interioridade está caiada de branco, o branco do silêncio, porque dantes as vozes juntavam-se e planavam alto, em crescendo, no coração da aldeia, e agora só ficou a solidão que já existia no olhar de quem partiu, estampada nas pedras que nos sobrevivem.

Ana Isabel F.

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