Editorial à procura de um mês

«Talvez, devagarinho, [se possa] voltar a aprender».

 

Já muito se falou e se escreveu sobre Salvador e Luísa Sobral e sobre a qualidade musical e poética da canção que quebrou o aziago feitiço que colocou, anos e anos a fio,  a canção representante de Portugal no final da tabela de classificação do Festival da Eurovisão, fosse qual fosse a qualidade da música a concurso. Só no dia 13 de maio de 2017, 48 anos depois, me senti vingada do 15.º e penúltimo lugar que Simone de Oliveira obteve no Festival da Eurovisão com a «Desfolhada», a canção de Ary dos Santos (letra) e Nuno Nazareth Fernandes (música), que conquistou milhares de portugueses, sobretudo com a ousadia de alguns dos seus versos, como o que se atreve a clamar: «Quem faz um filho fá-lo por gosto». Na altura tinha eu 9 anos, agora tenho 56. Mas valeu a pena esperar, porque o tempo de espera redobrou o sabor da vitória que, ainda por cima, foi inquestionável, expressiva, emotiva, fantástica. Todos estes adjetivos cabem, aliás, na canção que o mundo passou a trautear desde o dia 13 de maio «Amar pelos dois», revelando, inesperada e naturalmente, a beleza melodiosa da língua portuguesa. Isto apesar de, no dia em que escrevo, 25 de junho, a canção ter, infelizmente, praticamente deixado de se ouvir na rádio portuguesa, incapaz de fazer frente ao poder da música anglo-saxónica – sinto-me totalmente incapaz de perceber este fenómeno.

Porém, neste editorial que deveria ter sido de Maio e que, por limitações minhas de tempo para a escrita, acaba por acontecer em finais de junho, é sobre a força da letra desta canção que quero refletir neste momento. Porque o facto de, na sociedade atual, a caminhar para a pós-modernidade, em que a felicidade individual, diria até umbigal, tem o primado – quem não se lembra de ouvir amiudamente a expressão «eu mereço», «só há uma vida», «quero ser feliz» –  o facto, dizia, de tanta gente se ter deixado encantar por uma canção que fala em «Amar pelos dois» – exige-me esta reflexão.

Afinal o «Amar pelos dois», cantado divinamente por Salvador Sobral, nega a primazia desta felicidade individual. E, mesmo assim, ganhou o coração das pessoas.

Muitas delas decerto não terão dado enfoque à mensagem da canção, tendo sido conquistadas apenas pela melodia e pela voz sedutora do cançonetista, porém acredito que o coração de muitas outras sentiu o poder do verso «o meu coração pode amar pelos dois». Quem não desejaria, aliás, ser amado por alguém com esta capacidade de amar? Capacidade que não hesito em caracterizar como muito cristã, pois não está ela na mensagem de Cristo quando Ele defende que devemos ter a capacidade de dar a outra face, de entender, de não formular juízos de valor, de perdoar?

Atrevo-me a dizer que todos nós, os que partilhamos a condição humana, gostaríamos de encontrar alguém que tivesse a capacidade de amar assim, pelos dois, pois há momentos na vida em que, por distração do que é essencial, nos perdemos por aí, incapazes de nos amarmos a nós próprios e de amar os outros verdadeiramente ou, como gosto de dizer, incondicionalmente, com um amor não vivido sem erros, mas vivido na compreensão e no perdão e com o poder de tornar os outros mais fortes.

Se, durante estes períodos de distração próprios do ser humano, houver alguém com a generosidade de «amar pelos dois», dando oportunidade a que os corações distraídos se recomponham, haverá muitas mais probabilidades de o amor sair vencedor, de se fortalecer e de o ser humano se tornar mais forte e mais capaz de amar.

Porque se dermos tempo ao tempo, talvez a maior parte das pessoas se volte a focar no que é essencial. Como repete Salvador Sobral, «talvez, devagarinho, [se possa] voltar a aprender». Eu acredito que SIM.

 

Lucinda Santos

Imagem de destaque: “O beijo” de Klimt

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