Editorial de março

mudanca

Março é o mês da mudança, quando subitamente nos damos conta de que a Primavera pode estar a caminho e nos começamos a vestir com a esperança do Sol. Março traz-nos um novo tempo, manhãs mais vespertinas, dias mais demorados, tardes mais amplas no desenho dos dias. E nós abraçamos a novidade, porque a mudança cumpre o ciclo da vida.

Não restam dúvidas de que Março é o mês da mudança, mesmo que tudo fique igual e as manhãs ainda sejam dezembrinas ou dos telhados escorram fios de chuva. É mais uma questão de ser como o vento e de ir para onde ele vai, vestindo a mudança por dentro, no sorriso ou no olhar, antes mesmo que ela seja vinda.

De resto, é sabido que o tempo é como a moda. Vem e vai mas volta sempre. E nós gostamos de saber que o mundo pode passar a ter outras tonalidades, capazes de se refletirem subtilmente no nosso humor. Mesmo que demore a vir a vivência plena do Sol, nós sabemos que há de haver uma mudança nos nossos dias, um vento mais suave, uma luz mais acesa e (talvez) uma nova paixão pela vida. E, naturalmente, uma perspetiva de mudança é tão poderosa como a mudança em si. Dizem-nos isso os poetas e eles nunca se enganam.

Porém, não convém esquecer que a Primavera é mesmo a mudança maior da Natureza, porque é bela e faz renascer o que é belo. É a festa pagã da renovação, que discretamente vivemos na Páscoa quaresmal. Nessa contenção que nos oprime, no roxo da paixão de Cristo, estão ainda o rosmaninho e a giesta e todas as flores que nasceram pela mão do Criador. Esperamos a mudança, sem sabermos bem porquê. Só a não esperam os que desistiram, os descrentes, os céticos e alguns poetas… talvez porque a mudança é o renascer de uma esperança que pode ser enganadora… e ninguém mais do que os poetas sabe sublimar a esperança.

Com as suas palavras proféticas, os poetas já exprimem há séculos a mudança como o lugar da esperança ou da falta dela.

Deixamos aqui diferentes perspetivas, na certeza de que cada leitor saberá lê-las como suas ou como dor lida que é alheia e, talvez, até fingida.

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in Sonetos

No Ciclo Eterno das Mudáveis Coisas

No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.Ricardo Reis, in Odes de Ricardo Reis
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Não Me Sinto Mudar

Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmomental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.

Pablo Neruda, in Cadernos de Temuco
Tradução de Albano Martins

Ante Tamanhas Mudanças

Antre tamanhas mudanças,
que cousa terei segura?
Duvidosas esperanças,
tão certa desaventura…Venham estes desenganos
do meu longo engano, e vão,
que já o tempo e os anos
outros cuidados me dão.
Já não sou para mudanças,
mais quero üa dor segura;
vá crê-las vãs esperanças
quem não sabe o qu’aventura!

Bernardim Ribeiro, in Cancioneiro Geral de Garcia de Resende

Mudança

 

Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante que a
velocidade.

Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas,
calmamente, observando com
atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia,
ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama…
Depois, procure dormir em outras camas
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais… leia outros livros.

Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores, novas delícias.

Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor,
o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.

A nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida,
compre pão em outra padaria.

Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado… outra marca de sabonete,
outro creme dental…
Tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.

Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa, de carteira, de malas,
troque de carro, compre novos
óculos, escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros,
outros teatros, visite novos museus.

Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light, mais prazeroso,
mais digno, mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já
conhecidas, mas não é isso o que importa.

O mais importante é a mudança,
o movimento, o dinamismo, a energia.

Só o que está morto não muda !
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco,
sem o qual a vida não vale a pena !!!
 
Clarice Lispector 
Ana Isabel Falé
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