Editorial de fevereiro

«O amor não obedece às nossas expectativas. O seu mistério é puro e absoluto»

As pontes de Madison County

«O amor não obedece às nossas expectativas. O seu mistério é puro e absoluto» dizia, para si mesma, Francesca Johnson, protagonista do filme As pontes de Madison County, no rescaldo da sua renúncia à vivência plena de um amor secreto e proibido, tão inesperado quanto avassalador.

De facto, o amor entre Francesca Johnson e Robert Kincaid acontece numa altura das suas vidas em que ambos não tinham qualquer expectativa nem vontade que acontecesse, impondo-se a ambos de uma maneira absolutamente misteriosa e dominadora, apesar de Francesca acabar por abdicar daquele amor-paixão em prol de outro(s) amor(es), diferente(s) decerto, mas também amor(es): em prol do seu casamento, da união da sua família, da prossecução da sua história de vida.

Mas será sempre assim? Fugirá sempre o amor às expectativas e ao controlo do ser humano ou, ao contrário do que aconteceu com Francesca Johnson e e Robert Kincaid, haverá ocasiões em que as expectativas e a vontade de encontrar o amor funcionarão como verdadeiros estímulos para que este aconteça?

Esta questão será, decerto, um bom ponto de partida para refletirmos sobre o Amor neste mês de fevereiro em que se decretou, por devoção a S. Valentim ou por fervor comercial, comemorar o amor e os afetos.

Tendo em conta o que escreveram sobre o amor, os nossos poetas, da antiguidade à atualidade, subscreveriam as palavras de Francesca Johnson. Para Camões, por exemplo, o amor é um verdadeiro desconcerto que põe na alma «Um não sei quê, que nasce não sei onde; / Vem não sei como; e dói não sei porquê;», não tendo nunca correspondido aos anseios do poeta que nos diz, tristemente, que: «De amor não vi(u) senão breves enganos». Em Bocage descobrimos, igualmente, o amor mistério: «De seus mistérios co’a chave, / Amor entre nós volteia:», que, tal como acontece com Camões, é fonte de dor e não é capaz de colmatar os desejos do poeta: «Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,/Também carpindo estou, saudoso amante». Em Almeida Garrett, vemos, pela vivência de um amor feliz, que o amor não corresponde às suas expectativas, supera-as e com um arrebatamento que ele jamais ousara querer ou sequer imaginar. «Minha vida, minha alma. Anjo celeste do amor que me apareceste quando eu já não cria nem desejava nada nesta absurda vida do mundo, deixa-me desabafar contigo assim…).», confessa Garrett numa das muitas cartas que endereçou a Rosa de Montufar, viscondessa da Luz. Mais recentemente, numa canção com letra de Carlos Tê, Rui Veloso lamenta o facto de ter empenhado o seu anel de rubi para levar a namorada ao concerto do Rivoli, do qual ela acabou por fugir, deitando por terra as suas expectativas de uma sonhada noite de amor. Já Miguel Gameiro constata que: «Ainda não há receitas/ pr’a juntar dois corações».

Porém, o contrário também poderá acontecer? As expectativas e a vontade de encontrar o amor poderão funcionar como verdadeiros estímulos para que este aconteça?

Eu gosto de pensar que sim, aliás, atrevo-me até a responder que sim, pois, se tivermos expectativas, esperanças, sonhos, utopias e acreditarmos que, mais cedo ou mais tarde, eles se poderão concretizar, talvez se concretizem mesmo. E este pressuposto serve para o amor, para a amizade, para o sucesso, para a alegria, seja para o que for. E se, conjuntamente com as expectativas, as esperanças, os sonhos e as utopias, nos dermos plenamente à vida e aos outros, com alegria e com amor, a vida há de arranjar um caminho para nos agraciar.

Pensem nisto, neste Fevereiro frio e chuvoso, mas já a piscar o olho a Março, tendo a certeza de que a Primavera chegará.

Lucinda Santos

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