Conto: “O último dia do ano”

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Despede-se de 2016 como quem finge que o tempo não passou e ainda pode resgatá-lo em horas e dias não vividos, minutos longamente passados nas filas do IC 19, (sessenta por dia, vezes cinco dias, cinco horas por semana parado na carro, vezes vinte dias, cem horas por mês, 1200 horas por ano, quantos dias da sua vida parado no trânsito?). Passagens por portagens e vias sempre impedidas, ponte para lá e para cá, sinais de minuto a minuto, passagens de peões, paragens aqui e ali, recusas, desculpas, os objetivos a falhar, a crise não fatura, sem vendas o negócio cai, vai-se o emprego – a vida de um vendedor que se sintetiza no último dia do ano, numa só palavra – cansaço. Enquanto a tarde se esquiva sob o sol de Inverno, o vendedor abre um jornal e põe-no logo de parte. Liga a televisão e vê as últimas da bola. Entretanto, um raio de sol atravessa a sala e vem pousar-lhe no pescoço, como quem descansa ali o tempo. Então,  adormece imaginando que voltou atrás, quando os anos não eram nítidos como uma faca afiada e tudo parecia ser contínuo e descuidado.

Na cozinha, ela olha para o relógio e antevê o que ainda não fez antes do ano acabar, as iguarias, os requintes da decoração, a mesa posta para todos (apenas a família próxima, irmãos, sobrinhos e sobrinhas, filhos e namoradas), o banho de sais, o cabelo arranjado, o vestido passado a ferro, a vida passada a ferro, sempre sobre si, a ponto de chegarem todos e ser apanhada com os chinelos e o lenço na cabeça a esquartejar ainda o peru. Depois vem a canseira de servir à mesa, trazer isto e aquilo, recolher os pratos e os sorrisos, alisar as conversas, raspar os pratos, cozinha e sala, daqui para lá, onde está o meu copo, seria bom o vinho? Para o ano quero ir a um lugar de onde possa ver o mundo e conhecer o lugar do meu copo e despir lentamente o ano velho, como será o novo, virá sozinho ou como uma novidade alegre, a mudança de escalão, a promoção, o reconhecimento em casa, no trabalho, na vida? Se tivesse de resumir a noite que se avizinha diria: igual. O ano a chegar, igual. O ano que passou, trivial. Mas, então, a poesia acena-lhe no enquadramento da serra. Sabe que é lá, num palacete qualquer, que mora a sua alma antiga, aquela com a  qual soube tecer grinaldas de luz e sentir a demora do tempo.

Perto dali, havia um homem parado numa esquina. O corpo daquele homem habitava num casaco que, de esguelha, caía para um lado como que à procura do ser que dantes o vestira, quando a vida era mais cheia de tudo, de músculo, de sorte e de saúde. O homem que habitava o casaco estava na rua, encostado à parede frontal do Clube de gente fina, onde se preparava já o banquete de fim de ano. Esperava, inquieto, o brilho dos casacos das senhoras, o aprumo dos homens, a cinta impecável da burguesia que entre estolas e lantejoulas desfilava vaidades para receber o ano novo. O homem do casaco sabia que o viriam mandar sair dali, por causa de algum conviva incomodado por ver o avesso da vida tão próximo da sua ventura  entre os eleitos. Não queria esmolas. Não pedia nada, a não ser ver. Tivesse uns sapatos dançarinos, como no filme, e iria também lá para dentro, como o vagabundo do filme, dançaria toda a noite e ainda havia de abraçar a madrugada, dançando, mas isso era no filme. A realidade não oferecia sapatos dançarinos. Talvez oferecesse, lá pela meia-noite, o fogo de artifício – o céu é de todos. Os caixotes do lixo, também. Os empregados do clube já o conheciam. Nas traseiras, havia sempre um prato com comida para ele e uma garrafita de vinho que tivesse sobrado de uma mesa. O homem que habitava no casaco sorriu, feliz. Afinal, o ano ia ser bem passado. Tinha tudo, justamente porque não pedia nem desejava nada. A não ser, talvez, uns sapatos dançarinos como no filme.

Num apartamento minúsculo, ao virar da esquina, uma outra mulher olha para as unhas, irritada. Uma pequena fenda quebrava a perfeição. Olha para os sapatos, em desespero, vendo que o brilho estava baço, nada como esperava. O vestido não entra. Uns quilitos a mais? O rímel parece seco, o traço do olho alonga-se para o sítio errado. Os anos marcam as pegadas do tempo e das noitadas. Não acha o colar de pérolas semi falsas, ou mesmo falsas para os amigos. A mala não joga, os cigarros esgotados, o telemóvel sem carga, a bolsa leve, leve demais para a entrada que vai pagar no Casino, a entrada que o mundo lhe deve, depois de estar no mundo para servir os que têm do mundo a parte mais leve. Quando saísse, equilibrar-se-ia, como se habituara a fazer na vida, nos saltos feitos para ver do alto esse mesmo mundo que a coloca de lado. Tirou uma pastilha elástica, verificou o Face e esperou. Então, lembrou-se dos cigarros, do rímel seco e pôs-se a caminho do centro comercial. Tomaria um café com a amiga da Tabacaria. Talvez uma raspadinha e um roçar da esperança terminassem o último dia do ano, como se fosse o primeiro da sua vida.

A mulher que gostava de ter vivido em Sintra, num palacete, verificou a despensa uma e outra vez, trivialmente. Havia de tudo em doses duplas, para nunca nada faltar. Mas o ano terminara com um buraco no orçamento. Faltava um pouco de tudo. A mulher olhou para as horas e decidiu-se a passar, rapidamente, pelo supermercado. Pegou maquinalmente no carro, distraída com a visão do mundo paralelo em que vivia, quando o tempo a puxava para fora do seu rasto trivial. Vinha um homem a passar, desasado, pássaro ébrio, num  casaco largo, feito por medida para alguém que provavelmente o vazara num depósito de doação social. Ela travou com um barulho de freios queimados, para não o atingir. O carro ainda o desequilibrou, sem lhe tocar.  O homem despertou da sua absorção. Ia apenas à Tabacaria para ler os títulos dos jornais, enquanto esperava por qualquer coisa,  farto da imobilidade, da vida parada, da expetativa, da esperança, farto de algo que já não sabia muito bem o que era. Então, explodiu em impropérios ásperos contra a dona que andava na Lua e não via onde punha as rodas. Ela ainda pensou em acelerar e mandá-lo para um sítio, mas era demasiado educada para o fazer. Baixou a janela e escusou-se. Acrescentou que ele também não ia propriamente atento. Estavam nisto e iam continuar a acusar-se mutuamente, se não ocorresse um novo incidente, digno de nota. Vinha uma mulher alta e esgrouviada, a tentar saltitar pela calçada, qual cabrita montesa de largo porte, quando o salto se lhe pregou, inesperadamente, no tecido irregular da calçada. Havia pouca gente na rua, quase nenhuns carros, mas ela estava mesmo a meio. O caso podia ser grave.

Então, o homem que quase fora atropelado e a mulher que ia ao volante e sonhava com uma vida contemplativa num palacete da serra de Sintra, correram, esquecidos de si, a socorrer a mulher dos sapatos altos. O salto não saía, imerso entre o espaço de uma pedra da calçada e o trilho de outra e,  enquanto o homem do casaco se esforçava por o retirar, a outra mulher correu a estancar o trânsito que viesse. O tornozelo da mulher do sapato era esguio, a perna suave nas meias de seda e o homem sentiu sob a pele dos dedos o sabor da eternidade. Ela procurava esquivar-se afastando-o, claramente um desordeiro, um pobretanas, um vira-latas, um vencido, um verme daqueles que a faziam lembrar o avesso da vida, a penúria, o afogar lento da existência nos mesmos lugares húmidos e lôbregos da sua infância. Porém, ele tinha força e era uma alma viva a ajudá-la, ela que não via maneira de se safar sozinha, a não ser, claro, largando ali o sapato e indo a pé-coxinho para casa. Aceitou que ele a safasse daquela cena ridícula, sentindo-lhe a delicadeza do toque. Cuidadosamente, ele puxou. Receio partir-lhe o salto, disse. Não receie, quero mesmo é sair do meio da rua. Está segura comigo. Obrigada.

A outra mulher já tinha uma fila de carros parados e a buzinar. Vozes vinham em algazarra invetivar a mulher do salto encravado a despachar-se. Alguns saíram dos carros e vieram ver. O salto estava mesmo preso. Foi então que o homem do casaco largo fez o que faria se tivesse os seus sapatos de dançar, como no filme: puxou vigorosamente o sapato e agarrou-a ao colo, sem dificuldade, para atravessar com ela a rua, dizendo-lhe, que se lixe o sapato. Eu levo-a casa.

E assim foram, passeio acima, contra um pôr de sol que encandeou a outra mulher e os automobilistas que, espantados, assistiam ao gesto do homem. No quase crepúsculo, os dois pareciam, subitamente, uma sombra incandescente una e volátil, um casal de ébrios noivos a caminho de uma sonhada ventura. Um fragmento de luz na tarde trivial. A outra mulher lamentou que os seus saltos rasos a não traíssem, também, assim, de supetão, como um raio fulminante de inesperada novidade.

Regressaram todos para os carros e para o destino que os fizera passar ali. Nunca mais voltariam a ouvir falar do homem do casaco e da mulher dos saltos. Talvez tomassem um café em casa dela. Talvez ela não o deixasse entrar. Talvez lhe oferecesse apenas um casaco do ex-marido ou do irmão, talvez se despedissem com o ódio da absoluta incompatibilidade ou talvez se reunissem no mesmo riso cristalino que une um homem e uma mulher, inesperadamente, como designação do acaso.

Fosse como fosse, a outra mulher fez as compras e regressou à sua cozinha, imersa em molhos e guarnições, enquanto no seu mundo antigo o tempo era feito de rosas plácidas e de uma suavidade sem limites. O marido,  cansado das suas viagens, das consignações, promoções e devoluções ainda dormia. O salto lá ficou, sinal da interseção da matéria e da vida de três personagens ocasionais, até ser irremediavelmente integrado no piso, tal como os acontecimentos do último dia do ano ficaram cravados na memória dos seres, quando quase podia ser outro tempo e outra vida.

Ana Isabel Falé

31-12-16

 

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