Em Busca do Sol, um conto moderno

Em Busca do Sol é um conto da professora Lucinda Santos, com ilustrações de Tatiana Oliveira. A história, impressa e encadernada, acompanhou a nossa última edição e, porque uma abordagem crítica requerer alguma reflexão, ainda não lhe tinha sido dado o devido destaque.

O conto pode ser lido AQUI. Aconselha-se a sua leitura prévia a esta tentativa de abordagem do texto nas suas múltiplas linhas de leitura. É, podemos dizê-lo, uma narrativa que os mais novos leem como conto tradicional e que os mais velhos acolhem com um sorriso, tão próxima é a intriga das nossas vivências sociais. E se um dia o Sol nos abandonasse, cansado das nossas insatisfações e angústias pessoais e, ainda mais, da nossa atividade cega de predadores da Natureza?

Num cenário que reúne várias narrativas tradicionais numa só, temos personagens bem conhecidas da nossa infância, que inspiraram o nosso espanto, a nossa piedade ou admiração. Nelas podemos observar vários estereotipos sociais da modernidade, gente do nosso tempo, cujo comportamento social encaixa claramente nas figuras do João Ratão, da Carochinha, a Bailarina de Papel e o soldadinho de chumbo, a Branca de Neve com o seu séquito de protetores, a Bela Desardormecida e o Príncipe Garboso, enfim, todos eles personificam uma sociedade espartilhada, fechada em pequenos núcleos, onde convivem pessoas improváveis, até incompatíveis, com o mesmo padrão de comportamento que a sua condição lhes atribui. As pessoas, no mais fundo de si, não mudam, tal como as personagens dos contos infantis. Perpetuam atos e papéis sociais que receberam do seu meio familiar, com ligeiras atualizações de “software” e muito poucas de “hardware”. Determinismo social? Não exatamente. Antes saliento a importância da transmissão social de comportamentos e de padrões de vida. Filho de peixe sabe nadar ou cantar, pintar, ser feirante, cavador ou outra coisa qualquer que a condição social naturalmente tende a transmitir. Lembre-se embora a escolaridade obrigatória e o padrão migratório do campo para a cidade, o acesso ao ensino superior por parte de filhos do operariado e dos camponeses, entre os anos 70 a 90, a verdade é que a condição social é hereditária, numa sociedade neoliberal que procura (des)equilíbrios que assegurem a perpetuação do lucro. E esse só se ganha com a massificação das pessoas e dos comportamentos. Estamos, portanto, em pleno, no mundo dos contos de fadas que nos apresenta o conto de Lucinda Santos.

O desaparecimento do Sol obriga as personagens ao limite do seu heroísmo, mas poucas se encontram à altura de conceber a mudança ou a resistência. Procuram, antes, nos seus pares, a segurança perdida. Surpreende-nos o Mestre, o anão que lidera o grupo, embora o faça em cumprimento da sua condição dentro da história original.

O lobo surge aos olhos de todos também prisioneiro da sua condição de feroz e marginal devorador de porquinhos e de avozinhas. Para o João Ratão “todos os lobos são maus.” Mas este lobo é o oposto do esperado. Um anti-herói sem eira nem beira, escanzelado e famélico, carente e consciente de que a fama de mau se paga com séculos de solidão…

Desfeito o estereotipo, cada personagem é apenas um ser com as mesmas fragilidades de qualquer outro, as mesmas necessidades, as mesmas carências. As aparências surgem nesta história como enganadoras. A Carochinha é a que tem mais sentido da realidade, apesar da sua futilidade; o anão é o mais forte, não obstante a sua altura; o lobo mau é o mais frágil e, afinal, o Sol acabou por “abanar” as certezas de todos ao desaparecer, ele que é a única e a melhor certeza que temos.

Personificado como um velhote bonacheirão, ele próprio a precisar de um pouco de evasão, o Sol vem mostrar-nos que vivemos enformados e conformados nas certezas que fomos adquirindo, numa sociedade dita ocidental, que tem tido, por razões várias, o mais elevado grau de estabilidade, face aos inúmeros cataclismos naturais e não-naturais que assolam o resto do mundo. Vem lembrar-nos que a permanência das coisas é a maior das ilusões, já que tudo que temos como garantido, de um dia para o outro, pode deixar de o estar.

De resto, o conto mostra-nos que, para além das aparências, os seres são todos iguais na sua diversidade própria. Mostra-nos que os lobos maus já não são quem eram.  Provavelmente, outros haverá  que não parecendo, poderão sê-lo. Aliás, até a bondade e a maldade são conceitos que é preciso relativizar, conforme nos mostra o acolhimento do lobo por parte da Branca de Neve: este entrega-se à domesticação e ao conforto, ele que era um dos bastiões da liberdade e da vida selvagem. Ela acolhe-o por piedade ou pura bondade. Boas intenções, sim, mas nada é mais terrível do que a perda da liberdade. Moral da história: nada é o que parece. A salvação virá do regresso do Sol e certamente que todos perceberão a sua importância. A importância daquilo que temos.

Obrigada, professora Lucinda, por uma história que nos traz estas reflexões e, faltou dizer o mais importante, que encanta os mais pequenos com as seus diálogos e convívios improváveis, sem esquecer os magníficos desenhos que o ilustram.  O Jornal 100Letras orgulha-se da brochura que o acompanhou na sua edição comemorativa.

Ana Isabel Falé

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