Editorial de novembro

eslc

Cheguei à Escola Secundária Leal da Câmara, denominada então Escola Secundária de Rio de Mouro, há vinte e seis anos, muito contrariada. Não queria vir. Embora morasse perto, em Mem Martins, nunca tivera nenhum contacto com a Escola, a não ser através de um brevíssimo telefonema trocado com o presidente do então Conselho Diretivo, Professor Manuel Moreira, já depois de saber que aqui tinha sido colocada como professora do quadro de nomeação definitiva. Chorei quando soube dos resultados do concurso nacional de colocação de professores, pois pusera, na minha cabecinha jovem e sonhadora, que seria fácil continuar na Escola Secundária de Mem Martins, a minha primeira opção no boletim de concurso e a escola onde eu, na altura, adorava trabalhar. A Escola de Rio de Mouro fora a segunda opção. Fiquei na segunda opção, como professora do quadro, pertinho de casa, e chorei por causa disso!? Estarão a interrogar-se, com perplexidade, os muitos colegas que todos os anos percorrem quilómetros para trabalhar em escolas muito longe de casa, a maior parte deles com um sorriso, sem dramas. Têm razão. Hoje vejo o quão sem sentido foram aquelas lágrimas. Mas, em minha defesa, devo dizer que, em 1990, a realidade era outra. Na maior parte dos casos, os professores de Português e também os professores de Matemática ficavam precisamente onde queriam ficar. E eu queria ficar em Mem Martins.

Porém, contra factos não há argumentos e eu tinha de obedecer ao resultado do concurso. Com a anuência simpática do Presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária de Rio de Mouro, só cheguei à escola pouco antes do início das aulas. Cheguei timidamente, como, aliás, é o meu jeito de chegar a qualquer lugar que me seja desconhecido. Encontrei uma escola cuidada, muito organizada, com gente simpática, todavia, com um ambiente muito formal, muito diferente do ambiente descontraído que existia na escola de onde eu viera. Eu estranhei bastante esta formalidade e a adaptação não foi fácil. Contudo, muitas vezes, o que primeiro se estranha, depois entranha-se, como o sabor do Sushi ou o sabor das histórias bizarras do escritor japonês Haruki Murakami. Com o passar do tempo, fui-me adaptando, fui-me envolvendo, fui-me dando, fui aprendendo a estar na Leal e a amar cada canto, cada pessoa, cada projeto. A Leal entranhou-se em mim. Por isso, aqui estou há vinte e seis anos. Mas, o meu envolvimento na e com a Escola é tão forte que sinto que estou cá desde o início, pois foi também com o que dei de mim que a Escola cresceu e se tornou no que é hoje.

A Leal nasceu em 1986. Há trinta anos. Os primeiros tempos foram algo conturbados. O acesso à Escola era muito difícil. Muitos dos caminhos que a ela levavam não eram alcatroados e, por isso, nas estações do ano mais chuvosas, era preciso calçar galochas para atravessar o extensíssimo lamaçal que quase isolava a escola da restante vila de Rio de Mouro. A Escola não tinha jardins nem pavilhão gimnodesportivo – a construção do pavilhão gimnodesportivo levou anos e teve tantos avanços e recuos que parecia um enredo de um folhetim qualquer. Teve até honras noticiosas na impressa escrita. Pior do que isto, em 1986, com as aulas prestes a começar, não havia cadeiras em todas as salas de aula. As cadeiras só chegaram às salas após uma manifestação dos professores, dos funcionários e da população em geral, que ficou conhecida como «A guerra das cadeiras».

Todavia, as dificuldades iniciais não definem uma Escola, muito menos uma Escola com a força anímica da Leal. Com uma comunidade escolar muito jovem e bastante estável desde o início, a Leal meteu mãos à obra e fez os jardins, adquiriu equipamentos, reorganizou espaços, estabeleceu parcerias, concorreu a projetos, concebeu clubes e criou laços e cumplicidades, passando, rapidamente, a ser reconhecida pela comunidade envolvente como uma Escola de referência, na qual valia a pena estudar e trabalhar.

 Hoje, a Escola Secundária Leal da Câmara é a escola-sede de um agrupamento de Escolas constituído por mais cinco escolas. O Agrupamento mantém o nome da Escola Secundária. Porém muitas outras coisas mudaram. A Escola Secundária Leal da Câmara foi obrigada, em muito pouco tempo, a adaptar-se, a reinventar-se. Foi quase como se, após 26 anos de existência – o Agrupamento foi criado em 2012 –, tivesse de nascer outra vez, reiniciando o processo de crescimento, agora, com uma família bastante mais numerosa e, em muitos aspetos, com maneiras de estar e de fazer naturalmente diferentes das da Leal, pois cada uma das escolas que integrou o Agrupamento trouxe inevitavelmente consigo as suas raízes, a sua história, o seu percurso, a sua identidade e, até, as suas idiossincrasias. Mais uma vez e apesar do ceticismo e da resistência de alguns perante esta nova realidade, a Leal acreditou que seria possível conciliar todas as realidades e criar laços, de modo a construir, do pré-escolar ao 12.º ano de escolaridade, um projeto sólido, coeso, credível e de qualidade, capaz de envolver, educar, ensinar e ajudar as crianças e os jovens a encontrar, com tranquilidade, um caminho em direção ao futuro.

Foi imbuído deste espírito que nasceu o Projeto Educativo do Agrupamento, é na concretização deste espírito que se trabalha, quotidiana e afincadamente, na Leal e, naturalmente, é, com este espírito que todo o Agrupamento, e também esta edição comemorativa do 100Letras, parabeniza e festeja os 30 anos de história da Escola Secundária Leal da Câmara. Nas memórias deste tempo vivido, sobressaem os laços e as cumplicidades que ligam todos os que estiveram ou estão na Leal, mesmo os que entraram mais tarde ou os que estiveram por pouco tempo. A história da Leal é uma história de afetos. São eles que fazem dela uma Escola com alma, como referiram muitos dos testemunhos que trouxemos para esta edição do 100Letras, incluindo o do nosso Diretor. Que assim continue. Atrevo-me a dizer que as memórias destes 30 anos nos dão a garantia de que assim será.

Cheguei à Escola Secundária Leal da Câmara, denominada então Escola Secundária de Rio de Mouro, há vinte e seis anos, muito contrariada. Não queria vir. Embora morasse perto, em Mem Martins, nunca tivera nenhum contacto com a Escola, a não ser através de um brevíssimo telefonema trocado com o presidente do então Conselho Diretivo, Professor Manuel Moreira, já depois de saber que aqui tinha sido colocada como professora do quadro de nomeação definitiva. Chorei quando soube dos resultados do concurso nacional de colocação de professores, pois pusera, na minha cabecinha jovem e sonhadora, que seria fácil continuar na Escola Secundária de Mem Martins, a minha primeira opção no boletim de concurso e a escola onde eu, na altura, adorava trabalhar. A Escola de Rio de Mouro fora a segunda opção. Fiquei na segunda opção, como professora do quadro, pertinho de casa, e chorei por causa disso!? Estarão a interrogar-se, com perplexidade, os muitos colegas que todos os anos percorrem quilómetros para trabalhar em escolas muito longe de casa, a maior parte deles com um sorriso, sem dramas. Têm razão. Hoje vejo o quão sem sentido foram aquelas lágrimas. Mas, em minha defesa, devo dizer que, em 1990, a realidade era outra. Na maior parte dos casos, os professores de Português e também os professores de Matemática ficavam precisamente onde queriam ficar. E eu queria ficar em Mem Martins.

Porém, contra factos não há argumentos e eu tinha de obedecer ao resultado do concurso. Com a anuência simpática do Presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária de Rio de Mouro, só cheguei à escola pouco antes do início das aulas. Cheguei timidamente, como, aliás, é o meu jeito de chegar a qualquer lugar que me seja desconhecido. Encontrei uma escola cuidada, muito organizada, com gente simpática, todavia, com um ambiente muito formal, muito diferente do ambiente descontraído que existia na escola de onde eu viera. Eu estranhei bastante esta formalidade e a adaptação não foi fácil. Contudo, muitas vezes, o que primeiro se estranha, depois entranha-se, como o sabor do Sushi ou o sabor das histórias bizarras do escritor japonês Haruki Murakami. Com o passar do tempo, fui-me adaptando, fui-me envolvendo, fui-me dando, fui aprendendo a estar na Leal e a amar cada canto, cada pessoa, cada projeto. A Leal entranhou-se em mim. Por isso, aqui estou há vinte e seis anos. Mas, o meu envolvimento na e com a Escola é tão forte que sinto que estou cá desde o início, pois foi também com o que dei de mim que a Escola cresceu e se tornou no que é hoje.

A Leal nasceu em 1986. Há trinta anos. Os primeiros tempos foram algo conturbados. O acesso à Escola era muito difícil. Muitos dos caminhos que a ela levavam não eram alcatroados e, por isso, nas estações do ano mais chuvosas, era preciso calçar galochas para atravessar o extensíssimo lamaçal que quase isolava a escola da restante vila de Rio de Mouro. A Escola não tinha jardins nem pavilhão gimnodesportivo – a construção do pavilhão gimnodesportivo levou anos e teve tantos avanços e recuos que parecia um enredo de um folhetim qualquer. Teve até honras noticiosas na impressa escrita. Pior do que isto, em 1986, com as aulas prestes a começar, não havia cadeiras em todas as salas de aula. As cadeiras só chegaram às salas após uma manifestação dos professores, dos funcionários e da população em geral, que ficou conhecida como «A guerra das cadeiras».

Todavia, as dificuldades iniciais não definem uma Escola, muito menos uma Escola com a força anímica da Leal. Com uma comunidade escolar muito jovem e bastante estável desde o início, a Leal meteu mãos à obra e fez os jardins, adquiriu equipamentos, reorganizou espaços, estabeleceu parcerias, concorreu a projetos, concebeu clubes e criou laços e cumplicidades, passando, rapidamente, a ser reconhecida pela comunidade envolvente como uma Escola de referência, na qual valia a pena estudar e trabalhar.

 Hoje, a Escola Secundária Leal da Câmara é a escola-sede de um agrupamento de Escolas constituído por mais cinco escolas. O Agrupamento mantém o nome da Escola Secundária. Porém muitas outras coisas mudaram. A Escola Secundária Leal da Câmara foi obrigada, em muito pouco tempo, a adaptar-se, a reinventar-se. Foi quase como se, após 26 anos de existência – o Agrupamento foi criado em 2012 –, tivesse de nascer outra vez, reiniciando o processo de crescimento, agora, com uma família bastante mais numerosa e, em muitos aspetos, com maneiras de estar e de fazer naturalmente diferentes das da Leal, pois cada uma das escolas que integrou o Agrupamento trouxe inevitavelmente consigo as suas raízes, a sua história, o seu percurso, a sua identidade e, até, as suas idiossincrasias. Mais uma vez e apesar do ceticismo e da resistência de alguns perante esta nova realidade, a Leal acreditou que seria possível conciliar todas as realidades e criar laços, de modo a construir, do pré-escolar ao 12.º ano de escolaridade, um projeto sólido, coeso, credível e de qualidade, capaz de envolver, educar, ensinar e ajudar as crianças e os jovens a encontrar, com tranquilidade, um caminho em direção ao futuro.

Foi imbuído deste espírito que nasceu o Projeto Educativo do Agrupamento, é na concretização deste espírito que se trabalha, quotidiana e afincadamente, na Leal e, naturalmente, é, com este espírito que todo o Agrupamento, e também esta edição comemorativa do 100Letras, parabeniza e festeja os 30 anos de história da Escola Secundária Leal da Câmara. Nas memórias deste tempo vivido, sobressaem os laços e as cumplicidades que ligam todos os que estiveram ou estão na Leal, mesmo os que entraram mais tarde ou os que estiveram por pouco tempo. A história da Leal é uma história de afetos. São eles que fazem dela uma Escola com alma, como referiram muitos dos testemunhos que trouxemos para esta edição do 100Letras, incluindo o do nosso Diretor. Que assim continue. Atrevo-me a dizer que as memórias destes 30 anos nos dão a garantia de que assim será.

 

Lucinda Santos

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