Crónica do ensino noturno

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São muitos. Chegam ao dealbar da noite, o cansaço embrulhado em lenços, encobertos pela penumbra que lhes esconde o olhar. São os alunos dos cursos noturnos, que encontram na escola uma sopa quente, um miniprato servido com um sorriso e uma cadeira para pousar a vida, só por um momento. O saber é árido e finca-se na pele pela estranheza das palavras, tantas palavras nunca ouvidas, como farpas na pele dolente. O vento varre as folhas e as poças de água, translúcidas, refletem um luar surpreendente. É outono, mas persistem e são valentes.

Chegam ao fim de um dia com muitas horas percorridas em escalada contínua e aqui se deixam ficar a ganhar enfim à teimosia do tempo, que não lhes permitiu estudar a tempo o que se estuda em cada tempo. Nos seus países não houve ocasião ou não houve escola ou não houve lugar para ser criança. Estão a estudar para concluir o 1º ciclo ou o 2º ou o 3º mas não são todos os que chegam tão além do cansaço. Aprendem a ler à sua volta a estranheza do mundo e a escrever palavras mágicas ou a contar os custos da vida, em euros e, às vezes, em  lágrimas contidas.

Outros são de terras também distantes mas vieram para aqui há muitos anos, quando ainda havia lugares marcados a azul no mapa da esperança. Os nomes, muitos impronunciáveis, lembram lugares a oriente, lembram a tundra a leste ou a aridez do deserto. Querem aprender português, ou por teimosia, ou porque a nacionalidade lhes assegura um pouco mais de segurança.

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Vêm também, em bandos, os mais novos. O tempo passou a meio de um ano inconcluso e os dezoito anos determinaram o fim abrupto da adolescência descuidada. Terminam à noite o que o dia, com as suas múltiplas cores, não deixou terminar. Falhou a Matemática, o Português ou a Física mas não a persistência.  E vieram.

Já foram muitos, em tantos e tantos anos em que os portões da escola estiveram abertos para eles. Partiram, tomaram novos rumos, alguns ainda a tempo de apanhar os degraus  académicos.

A escola tem sido o lugar onde depõem a esperança, porque é nela que se risca o futuro, sob a sombra do arvoredo mudo, quando as noites são de ciência partilhada. E é preciso não esquecer que a escola é também outra coisa, um terraço para o mundo, “e que essa coisa é que é linda”[i].

Ana Isabel Falé

[i] Fernando Pessoa

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