Editorial de outubro

the_danish_girlGosto de pensar que, na sua génese, o amor é incondicional. Por isso, chorei comovida durante toda a exibição do filme A rapariga dinamarquesa, de Tom Hooper. Não porque tenha certezas ou sequer opiniões sobre até onde se deve/pode ir quando alguém sente que nasceu no corpo errado – não consigo, nem quero tecer considerações sobre isso – mas porque o filme é, do princípio ao fim, um testemunho do que é o amor incondicional.

Gerda e Einer, protagonistas do filme, amaram-se apaixonadamente desde que se conheceram e enquanto viveram, em plenitude, como marido e mulher. Porém, Gerda amou Einer ainda mais, quando os problemas aconteceram e ambos tiveram de fazer escolhas difíceis.

Gerda calou o que sentia por Einer como mulher para o apoiar na decisão de transformar o seu corpo, embora discordasse da sua opção. Ajudou-o a recuperar das cirurgias e a encontrar-se a si próprio no caminho para a sua nova identidade – como, por exemplo, na procura e manutenção de um emprego condigno e que lhe desse alguma satisfação –, e, apesar do seu sofrimento e dos seus esforços para que Einer sobrevivesse, foi capaz de lhe dar serenidade e bem-estar na hora em que percebeu que este iria partir. Se Einer viveu e morreu procurando irmanar o seu corpo e a sua alma, Gerda viveu para o amar incondicionalmente.

Porém o exemplo de amor incondicional nesta narrativa não é apenas o de Gerda para com Einer. É também o de Hans para com Einer e para com Gerda. Hans, o amigo de infância de Einer, regressa à vida deste, comovido com o pedido de ajuda desesperado de Gerda. E, altruisticamente, tal como Gerda, fica nela enquanto sente que é preciso, retirando-se quando sente que a sua ausência é o melhor. Neste jogo de aproximação e de afastamento, descobre o amor por Gerda, mas isso não o impede de perceber a ligação desta com Heiner. Por isso, é paciente, mostra serenidade e empatia pelos sentimentos de Gerda e Einer e predispõe-se a esperar e a apoiar o ex-casal na sua caminhada.

Percebe-se, no final da narrativa, que Hans e Gerda poderão ter um futuro juntos como amantes. Mas se isso não acontecer, é notório que, pelo menos, terão um futuro interligados como amigos, pois os momentos que viveram torná-los-ão cúmplices para a vida.

É, pois, uma narrativa impressionante, sobretudo porque mostra que o amor verdadeiro, aquele que apelido de incondicional, não sendo um amor que se vive sem erros, é um amor que se vive na compreensão e com perdão e tem o poder surpreendente de tornar os outros mais fortes.

A narrativa passa-se na primeira metade do século XX (inicia-se em 1926), porém, a mensagem é de uma importância extrema na atualidade, em que todos os dias os meios de comunicação social nos confrontam com histórias de violência doméstica, crimes passionais, que nunca aconteceriam se as pessoas tivessem a capacidade de amar incondicionalmente como os protagonistas deste filme.

Foi pela urgência desta mensagem, que considerei refletir sobre a narrativa de A rapariga dinamarquesa, neste editorial do mês de outubro, escrevendo um texto que os leitores pudessem assumir como um convite ao visionamento do filme, num mês em que o arrefecimento noturno e o encurtar dos dias convidam já ao abandono do corpo num sofá com vista para o mundo. Tenho a certeza de que os que cederem ao convite não se arrependerão.

Imagem do filme

Lucinda Santos

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