Editorial de Agosto

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O mês de julho que agora termina e o mês de agosto que agora se inicia são, por tradição ou exigência do calendário, os meses em que mais portugueses gozam as suas merecidas férias. E, como já referimos em editoriais anteriores a este, em Portugal, férias de verão são sinónimo de altas temperaturas, sol radioso, mar azul, areia lúbrica e muito, muito preguiçar. Porém, neste editorial de agosto, mês de tudo isto, apetece-me falar de outras maneiras de viver as férias de verão, ou melhor, da minha maneira, da maneira da minha família viver estes momentos tão ansiosamente esperados durante o ano inteiro e tão apercebidos como fugazes quando finalmente acontecem.

Para além do deleite de estarmos em família e do preguiçar sem limites, como faz a maioria dos mortais, as férias de verão, para mim e para a minha família, são pensadas, sobretudo, para procurar conhecer e/ou revisitar pessoas, factos, lugares, paisagens, cheiros, cores e sabores, muitos dos quais estão tão pertinho de nós que nos poupam ao cansaço de grandes deslocações.

Nas atuais férias de verão, que estão, incompreensivelmente (porque foram as mais extensas que tivemos nos últimos 9 anos), a terminar, revisitámos um desses lugares: a Casa Fernando Pessoa.

Inaugurada em 1993 e situada em Campo de Ourique, um dos bairros carismáticos da cidade de Lisboa, a casa onde Fernando Pessoa morou nos últimos 15 anos da sua vida dá-nos um retrato completo da pessoa que foi Pessoa, testemunhando a sua vida, a sua genialidade, o seu envolvimento no movimento modernista e a sua amizade especial e incomum com Mário de Sá Carneiro, e oferece-nos a oportunidade de experienciar cultura, pois é uma casa onde acontecem, diariamente, colóquios, conferências, debates, espetáculos, exposições, entre outros, fazendo da sua visita (que pode ser guiada) um verdadeiro deleite.

Porém, apesar do deslumbramento que é visitar todos os compartimentos da Casa Pessoa, o espaço que mais me impressionou, pela exiguidade da sua dimensão e pela austeridade do seu mobiliário, foi o quarto do poeta. De facto, o quarto onde dormia e escrevia um dos poetas mais geniais da humanidade é extremamente pequeno e bastante austero. Ao centro tem uma cama estreita, para uma só pessoa ou para uma pessoa só. Do lado esquerdo da cama (tendo em conta quem está nela deitado), há uma mesa de cabeceira, que tem em cima o esperado candeeiro e a cigarreira, aberta, como se, a qualquer momento, Fernando Pessoa pudesse entrar sem controlar a vontade de fumar um cigarro. Do outro lado, do lado direito da cama, mas mais para os pés, está a cómoda que se tornou célebre no momento em que Pessoa revelou, na carta que escreveu a Adolfo Casais Monteiro, a génese dos seus heterónimos e na qual escreveu, sobre o tampo, em pé, «como escrevia sempre que podia», os trinta e tais poemas do seu heterónimo Alberto Caeiro, iniciados com o título «Guardador de Rebanhos». E, ao lado da cómoda, a arca, ou melhor, uma réplica da arca na qual Pessoa guardava muitos dos seus escritos. Porém, nem a arca nem a cómoda são grandes ou majestosas. A arca é simples e pequena, quando muito média, e a cómoda também não é grande e, sobretudo, não é muito alta. E não há mais nada no quarto, nem sequer uma simples cadeira.

Perante a exiguidade do quarto e a escassez do mobiliário aí existente, na altura, não consegui deixar de pensar quão pouco bastou a Fernando Pessoa para ser tão infinitamente grande, para ser tanta pessoa numa Pessoa só, para ter em si todos os sonhos do mundo e para sentir tudo de tantas maneiras, um contraste gritante com o muito de que tanta gente precisa, hoje em dia, para afinal ser tão pequenina, tão mesquinha, tão arrogante, tão soberba, tão pouco, tão nada.

Por isso, visitar a Casa Fernando Pessoa é muito mais que encher os sentidos e a alma de cultura, de sabedoria, de encanto ou de deslumbramento. Visitar a casa Fernando Pessoa é apreender maneiras de sentir e de viver e de procurar refletir, sem receios, mas com desassombro e clareza, sobre o que deve ser realmente importante no caminho que percorremos durante as nossas vidas, processo que Pessoa descreveu para si próprio como sendo um «caminho pelo infinito fora até chegar ao fim». E o nosso caminho? Na agitação do dia a dia desta era pós-moderna, pensamos realmente e sem máscaras em como queremos e/ou podemos descrevê-lo?

                                                                                                                                  Lucinda Santos

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2 Comments

  1. Tal como esperava o teu artigo fez-me bem. Sim, as férias são importantes apenas e só pela família e pela partilha de experiências significativas. Não é muito importante passá-las no deserto ou num resort nas Caraíbas. Mais saídas, mais vivências que perdurem na memória, essa é a essência das férias (sempre tão esquecida…).

    Muito obrigada por nos lembrares disso.

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