A política do vale tudo

Quando o desespero toma conta das organizações, sejam elas quais forem, políticas, religiosas, educacionais, desportivas, a ausência de orientação desencadeia comummente a ação sem alvo preciso e com todos os alvos na mira. É o que em bom português se designa por “vale tudo”- seja o que for – importando apenas os resultados.

Ora, este tipo de ação caracateriza bem o modo como o terrorismo tem vindo a eclodir nos últimos tempos. Face às sucessivas derrotas sofridas, que redundaram na morte de alguns dirigentes, as coisas não estão a correr bem para o Daesh. O grupo terrorista perdeu parte da cidade de Fallujah, perdeu cerca de 45% do seu território no Iraque e 20% na Síria, fruto da ação conjunta orquestrada pela Rússia e o Iraque (entre outros). A organização terrorista lança agora mão de uma estratégia poderosíssima e assustadora mas que denota bem uma mudança de postura, baseada na máxima “a ocasião faz o ladrão” ao usar, como armas, pessoas anónimas e não recrutadas, fazendo apelo ao heroísmo, à vontade de protagonismo e à revolta sentida pelos jovens europeus descontentes com a sociedade. O olhar de Mouhamed Boulel, registado pelas selfies que tirou antes do seu ato terrorista em Nice, atesta essa vontade de afirmação para a posteridade. A mensagem é clara como uma assinatura: já não sou deste mundo, mas estive aqui e deixei a minha marca. Agradeçam-me pelo que fiz.

Depois do ato, isolado ele também, perpetrado na Alemanha, as dúvidas, se as tínhamos, esmorecem. O jovem refugiado de 17 anos parece ter sido mais um dos que recebeu e entendeu a mensagem do “vale tudo” que a organização lançou. A Europa e o mundo despertaram com esta inquietude de saber que tudo pode acontecer, inesperadamente, da maneira mais inusitada, no cenário mais imprevisível.

Às autoridades cumpre a aprendizagem de que a inventividade humana não conhece limites, para tudo, até para a arquitetura de ações terrorista devastadoras. A única ação possível é uma abertura total a todos os cenários, vestindo a pele do lobo para saber como ele caça. Se a isso juntarmos o desespero, a desagregação das células terroristas organizadas, a crescente tensão económica e racional, os cenários bélicos por todo o mundo árabe, podemos ficar com a certeza de que estamos perante armas muito mais eficazes do que o ato de terrorismo organizado. Agora vale tudo.

No nosso país, pequeno oásis onde, ainda assim, a diversidade vai funcionando, onde as políticas de agressão bélica são reduzidas, resta-nos pensar em rever o modo como respeitamos a diferença e como fazemos a inclusão, aprendendo com os erros daqueles que não souberam fazê-la.  Mesmo assim, nada nos garante doravante a paz, desde o momento em que passou a valer tudo para ferir o mundo ocidental.

Talvez  a única forma de desarmar o terrorismo, para quebrar esse colar feito de contas de ódio, deva ser o silêncio, aquele que não cala nem consente, mas condena e, sem acicatar mais o ódio nem dar a outra face – posturas extremas – provavelmente bastará agir individualmente, junto dos que nos estão mais próximos, talvez alunos, talvez pais, talvez vizinhos, uma palavra, um sorriso, um pouco daquilo que une as pessoas em laços de paz, a amizade ou algo assim.

Mas não será demasiado tarde para isso, quando o ódio propalado pelo estado islâmico remonta, ao que parece, à época da reconquista cristã na península ibérica? “Al Andalus”, o  sonho de tornar islâmico o mundo inteiro, não será uma pretensão largamente maior do que as (nossas) melhores intenções?

Ana Isabel Falé

Foto de destaque: Christophe Petit Tesson/EPA

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