Editorial de Julho

Mais um mês, uma nova cor no horizonte, um alívio desenhado a traços (ainda leves) nas feições da nossa gente, professores alunos, funcionários. Para muitos, os desafios que fazem das férias um marco merecido (mas ganho à força da exaustão) são ainda muito agudos. Exames, vigilâncias, correções. Matrículas, certificados, inscrições. Juntam-se as pontas de um lenço por dobrar e de outro por estender e alisar: o velho ano letivo é cuidadosamente arrumado nas gavetas, enquanto o novo nasce em osmose lenta.  E tudo se interpenetra e cruza, até a nossa vontade de extrair do que está feito o viço para se fazer melhor.

Chronos, na sua voracidade, apressa-nos e distancia-nos de tudo aquilo que queremos abarcar. Urge priorizar alguma coisa para que não restem dobras entre o que foi e o que será, pois o fluir do tempo faz de nós as calhas de uma engrenagem burocrática que nos sintetiza em pura tensão. Nesta altura do ano, a escola é uma fábrica em laboração contínua, quase invisível, mas sempre entre dois turnos. E lá fora?

Lá fora, paira o ambiente de apoteose que Portugal vive com a proximidade (tão promissora) que a nossa seleção nacional tem do título europeu. Podemos ser aquele povo feliz e incumpridor, com muito mar e muito campo, com um clima quente e aquela mansidão de costumes que atrai os ingleses reformados, podemos até ter os melhores quadros e a mão de obra a refugo de que a Europa necessita, podemos ser muita coisa e ter ainda mais, mas não seremos nem teremos nada que se compare com este novo rasgo de esperança que é a possibilidade de derrotarmos a Europa, nem que tal seja apenas num campo de futebol! Tal feito lembrará a muitos o tal império imaterial que ainda vivemos esperando, desde que D. Sebastião nos deixou num campo de derrota, onde se jogava não um título, mas a nossa liberdade.

Desenganem-se, porém, os que sobrevalorizam esta aproximação mítica ao domínio dos deuses. É o nosso orgulho nacional, sim, é a nossa identidade jogada numa simples bola de futebol a caminho de um pontapé, mas será, se for, uma glória efémera. Continuaremos a não ganhar à Europa onde mais importa, no campo das exportações, na Bolsa, nas condições de estabilidade, na economia. A hegemonia do futebol nas nossas vidas é isso mesmo, um espelho onde nos vemos projetados em glória, em esperança, às vezes em derrota, mas sempre numa imagem coletiva, ou clubista, ou nacionalista que se sobrepõe à nossa identidade individual, quiçá menos rica e feliz.

Se tivermos de escrever nova epopeia, talvez tenhamos de fazê-la pelo lado do futebol ou de outras modalidades desportivas (Dulce Félix é vice-campeã da Europa nos 10.000m; Sara Moreira venceu a meia-maratona) ou pelo lado dos nossos artistas e imigrantes que correm o mundo a cantar ou a cumprir o fado, talvez também pelo lado dos rostos anónimos que sustentam um país sem opções, talvez pelo lado do nosso capital humano, sim, e pelo nosso património natural.  No entanto, muitas vezes as taças são intensamente secretas e extremíssimas, fundidas num anonimato onde se acende, provavelmente, o verdadeiro heroísmo de resistir.

Ainda assim, cepticismo à parte, que venha a Taça da Europa, pois por aqui também a merecemos!

Ana Isabel Falé

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