Tirar o cavalinho da chuva

 

CltNJcfUgAcSiFx
https://twitter.com/Knightcartoons/status/746275065126227969/photo/1?ref_src=twsrc%5Etfw

O mundo continuou a girar para o mesmo lado, mas a Europa acordou em crise quando se soube o já esperado, que o  Reino Unido havia decidido tirar de vez “o cavalinho da chuva”. Não é que o cavalinho fosse muito mau, pelo menos para Portugal, não tanto certamente como o cavalinho holandês, nosso desde sempre muito crítico e avaro membro. Não se pode também dizer que o cavalinho pastasse demasiado solto, pois a Alemanha põe corda curta e muito humanitária a tutti quanti. Sabe-se é que a decisão está tomada, acende luzes à direita e à esquerda, assusta os frágeis mercados, deixa o Reino Unido alquebrado e o mundo expectante.

Este país, que outrora, para seu governo, deixou “cavalinhos” nos maiores continentes, é hoje um daqueles membros (era) que importa e exporta apenas aquilo que lhe importa mas não procura encher os cercados alheios com os seus produtos excedentários, honra lhe seja feita. Menos mal para nós, pior ou melhor para outros, consoante o ponto de vista e o interesse individual, porque é disto que se trata: de individualismo e depois de desencanto, talvez primeiro um e depois o outro, ou os dois em simultâneo.

É também o medo da responsabilidade coletiva relativamente ao resto da Europa, decorrente, talvez, de uma visão exacerbada do peso das minorias migrantes na economia do país, que já conheceu melhores momentos. É talvez o sentimento de uma classe média muito Midsomer Country Club que perde privilégios e assiste à acumulação de riquezas nas mãos de 1% da população. É talvez tudo isto que constitui  a “chuva” que, sabemos, toca a todos, mas entendeu o Reino Unido que o melhor mesmo era roer a corda de todos os males.

Os ingleses, escoceses e irlandeses ainda não sabem, mas o Reino Unido não tirou só “o cavalinho da chuva”, provavelmente tirou soberania a todos os outros e a si mesmo. Abriu a porta à extrema-direita para esta cauterizar a ferida da imigração, que não tem cura, nem remédio, nem sequer é uma ferida mas uma inevitabilidade ditada pela falta de mão de obra qualificada (e menos qualificada) do Reino Unido, pelo menos uma parte dela. Fez esquecer a dimensão utópica e humanitária da União Europeia, enquanto tentativa de democracia global com respeito pela soberania das nações. Fez esquecer esta ideia primordial e utilitarista de proporcionar o maior bem ao maior número de pessoas, admitindo o prejuízo das minorias mais abastadas dos países mais fortes para benefício dos mais fracos, sob o pressuposto de que a felicidade é o fim último da vida e deve orientar a ação política. Esqueceu também que a UE assegurou a paz e o livre arbítrio dos povos, dentro de um quadro legal que (felizmente) normalizou, ditou regras e padrões, elevou a qualidade a uma medida padrão, reconhecendo o valor instrumental dos direitos e liberdades das pessoas, como um meio para a felicidade.

Sim, nesta perspetiva, as instituições políticas e ordenamentos sociais promovidos pela União Europeia têm garantido igualdade e autonomia aos cidadãos europeus, bens que são uma parte constitutiva da felicidade. Rawls falaria ainda na justiça distributiva e explicaria a necessidade de a justiça ter primazia sobre a felicidade. Mas, infelizmente, não teve, nem a justiça distributiva se verificou, a não ser, como se disse, no plano dos direitos.

Pelo contrário, todos os esforços de igualização falharam no cenário do néo-liberalismo, na necessidade de cada povo salvaguardar o máximo de benefícios e o mínimo de cedências económicas. Desenvolveu-se um jogo de monopólio entre as economias fortes e as mais fracas, um jogo que só fortificou mais umas e enfraqueceu ainda mais as outras. Percebe-se que as camadas menos jovens e menos instruídas da população do Reino Unido fossem levadas a acreditar que a Europa está a ameaçar a sua liberdade, prosperidade e identidade, sem se preocuparem em saber qual o estatuto de jogador do seu país.

De resto, a decisão do Reino Unido é ela também utilitarista de um ponto de vista estritamente individual: se a consequência desta ação for a maior felicidade geral, então é, em si, uma ação boa, moralmente aceitável:  o máximo de felicidade está justamente na não repartição de riqueza com os outros povos.  É uma ideia tentadora, que mais países se apressam já a seguir. Mas, como se faz o cálculo da felicidade? Os ganhos e perdas de um gesto, de uma decisão como se quantificam? Pobre Europa, perdida entre a batalha dos interesses individuais…

A verdade é que o mundo não avança unilateralmente, nem há memória de que a história aponte causas únicas para um situação conjuntural. Portanto, ou a História se repete, e então esta decisão do RU  é o indício de um novo ciclo macroeconómico, sociopolítico ou qualquer coisa de má-memória, ou não se repete e a Europa prosseguirá  o seu curso até ao limite da capacidade das nações e dos povos fragilizados.

O certo é que, aos poucos e poucos, a saída da União Europeia se transformou num mito, o do regresso ao passado, antes da Europa ser a Europa, antes dos colapsos económicos,  antes das guerras e das migrações, mas não é preciso pensar muito para ver nesse retrocesso o sinal de uma mudança maior, mais além da Europa, uma crise universal de valores provocada pelo conflito de interesses no acesso à riqueza e a esse bem supremo que se chama felicidade, ao qual todos os seres humanos aspiram ter acesso, nem que para isso tenham de atravessar os mares em lenho leve, com a morte por barqueiro e a esperança por guia.

Ana Isabel Falé

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s