«Inquietação 74-16» pelo grupo “Reticências”

«Inquietação 74-16» ou como os nossos corações se encheram de luz e vida

«Era uma vez um país… triste, sombrio, miserável». Foi assim que o encenador da peça, Rui Mário, iniciou a narrativa do espetáculo «Inquietação 74-16!», apresentado no auditório do Centro Paroquial de Rio de Mouro a 6 de abril e, posteriormente, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, por ter sido uma das peças distinguida com uma menção honrosa na 24.ª Mostra de Teatro das Escolas de Sintra. Muito merecidamente, deixem-me dizer.

O espetáculo, com texto narrativo dos professores Fátima Monteiro e Jacinto Bettencourt, protagonizado pelo Grupo de Teatro Reticências da Escola Secundária Leal da Câmara, proporcionou-nos uma viagem memorável pelos últimos 42 anos da história de Portugal – do tempo da ditadura a 2016 –, através das palavras, ora tristes e sonhadoras, ora inquietantes, dolorosas, resistentes e repletas de esperança de poetas portugueses intemporais, que persistirão para sempre na nossa memória coletiva: José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre, José Mário Branco e Sérgio Godinho (perdoem-me se me esqueci de algum), muitas vezes soberbamente acompanhadas pela música (o Duarte, no saxofone, o Eduardo Faustino, na viola, o José Almeida, no baixo, a Joana Folgado e a Rita Luzio, nos violinos) e pelo bailado de corpos jovens em perfeita harmonia. Aliás, tudo no espetáculo foi harmonioso, encantatório e feliz.

Ainda entrava o público e já o grupo de teatro, ao estilo de chamamento e decerto aquecimento das vozes, ia repetindo o nome que, em boa hora, um dia, José Mário Branco deu a um poema seu, que acabou por funcionar como mote inspirador do espetáculo, «Inquietação». E se a repetição da palavra «inquietação» centrou o público no espetáculo, a balada «Menina dos olhos tristes» de Zeca Afonso, na voz da aluna Mariana Correia, conquistou-o e as palmas soaram estrondosas no final da canção.

Tinha sido instalada a magia que continuou em cada intervenção dos músicos, em cada balada, na voz límpida e maravilhosa da Mariana Correia, em cada dança, em cada poesia dita e gritada, em cada projeção, em cada gesto, cujo efeito era bem visível no rosto das pessoas que estavam presentes no auditório. A magia, mas também a inquietação – não fosse este o nome do espetáculo -, a tristeza, a alegria, a saudade, a comoção e a esperança.

Foi um espetáculo muito comovente do início ao fim, tão comovente que muitos dos que viveram ou dos que, de algum modo, contactaram com quem viveu a guerra em África, a ausência de liberdade, as perseguições da PIDE, as restrições económicas, o 25 de Abril de 1974, o PREC, a mudança, a esperança e, por vezes, a desesperança, se emocionaram até às lágrimas. E os que não choraram mantiveram-se em religioso silêncio a vivenciar cada momento com a solenidade que ele merecia e merece.

Foi também um espetáculo que escancarou a porta à esperança e ao futuro, pois aquele grupo de jovens, apesar de não ter vivido as inquietações do passado, conseguiu encarná-las, assimilá-las e trazê-las daquela maneira espantosa para o presente, emocionando uma plateia de todas as idades e mostrando que a inquietação é um sentimento transversal a todas as gerações e a todas as épocas. Inquietarmo-nos é, afinal, próprio do ser humano e, ainda bem, porque a inquietação permite o sonho e o sonho permite a ação e a ação permite a mudança. Foi por terem existido «pessoas que não se conformaram, que se inquietaram, que lutaram por um país novo e livre….» (Jacinto Bettencourt) que, em Portugal, hoje se vive em liberdade, em democracia.

Por tudo isto, um grande muito obrigada ao grupo de Teatro Reticências, ao seu encenador, Rui Mário, aos professores Fátima Monteiro, Manuel Alves (responsáveis pelo grupo) e Jacinto Bettencourt (coautor do texto), à Mariana Correia, aos músicos, à equipa técnica, que correspondeu também de modo brilhante às solicitações, e a todos os que apoiaram esta iniciativa – Câmara Municipal de Sintra, Teatro TapaFuros, Centro Paroquial de Rio de Mouro, Associação de Pais, Junta de Freguesia de Rio de Mouro, Centro de Recursos Educativos e Pais e Mães sem Limites. Foram a equipa perfeita, pois possibilitaram que «nunca as [nossas] mãos [ficassem] vazias», como diria Sophia de Mello Breyner, e que os nossos corações se enchessem de luz e vida.

Lucinda Santos

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2 pensamentos sobre “«Inquietação 74-16» pelo grupo “Reticências”

  1. Tive muita pena de não poder assistir a esta peça. Pelo que li deve ter sido bonito.
    Parabéns ao Grupo de Teatro Reticências (todos) e também a quem escreveu este texto. Está lindo.

    Ana Paula Bento

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