Editorial de Maio

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Maio entra pela nossa vida com promessas de sol e flores, alguns sorrisos, uma memória de chuva ainda nos beirais – como se não soubéssemos já que a primavera é breve e nunca é plena, nas voltas tresmalhadas do clima. Maio é um mês de esperança maior: que o sol se acenda mais, que o corpo se solte e os vestidos adejem na amena aragem e que as deuses nos obnubilem de toda a frieza do longo inverno.  Maio é o mês das papoilas e das amendoeiras e de todos os pequenos milagres da renovação da vida.

Mas em em Maio, como em tudo, o princípio e o fim já se anunciam de mãos dadas, com o ritmo que o calendário impõe. E, assim, sabemos que o tempo mais uma vez nos traiu e nos levou depressa demais as horas e os momentos e o olhar para a vida. Parece que o tempo só foi demorado quando brincávamos no meio da infância e quando tudo era pautado pelo balanço dos sonhos e reinações. Agora o tempo é fugaz.

Aproxima-se o fim de mais um ano letivo. Cedo ainda para balanços mas talvez não seja tarde lembrar o que fizemos com o tempo, enquanto seres sociais e agentes de um coletivo organizado. A comunidade educativa, no seio da qual nasceu este suporte, tem também vivido ciclos de fim e de recomeço, de aceitação e de recusa, de espanto e de concessão, de doação e de partilha. Duas instituições vizinhas, estranhas e desconhecidas durante muito tempo, encetaram um novo curso de mudança, por imposição e por vontade, mas cautelosamente (como se não fossem assim todos os grandes passos).

Aprendemos que a identidade não se guarda num cofre. Preserva-se e solta-se para se renovar. Se o antigo agrupamento de escolas Padre Alberto Neto já agregara as comunidades do 1º ciclo e já existira uma negociação de espaços, saberes e poderes, a agregação com a Escola Secundária Leal da Câmara reuniu uma multicultura feita de gente, de valores, de ideias e de tradições ainda mais larga e mais diversa. Vozes dissonantes à parte, e esquecendo o pessimismo das mudanças,  a massa crítica, o individualismo que sempre nos tenta, é bastante evidente que estamos mais ricos e mais maduros, a caminhar para uma identidade múltipla, onde se guarda e se respeita aquilo que faz de cada instituição um lugar singular.

Três anos após a formação do Agrupamento de Escolas Leal da Câmara, a maior evidência de que este existe e não é um mero documento ministerial com um Projeto Educativo conjunto é o facto de as suas gentes conseguirem juntar vontades, artes e saberes e realizar um dia comemorativo como aquele a que assistimos, na passada sexta-feira, com feira, música, dança, ritmo, teatro, luz, magia, vozes e textos numa sala repleta de alunos, pais e professores.

O tempo não nos traz só o fim. É preciso que se saiba que o tempo também nos traz a renovação e o princípio sempre novo de todas as coisas. Mesmo em educação, os ciclos seguem-se com esforço e sacrifícios. E, de tudo o que se perde, ou deixa de fazer, o mais importante é aquilo que se conquista.

Ana Isabel Falé

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