25 de Abril, um símbolo intemporal

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Os símbolos, enquanto formas concisas de representar ideias, prolongam-se no tempo e passam de geração em geração, até se esquecer a sua história. São, porém, universais, porque também o são as ideias que representam. O desejo pela liberdade é intemporal e tem conduzido a humanidade em revoluções e guerras sem fim. Abril é, pois, o símbolo da liberdade  que foi conseguida contra a opressão do Estado Novo em 1974. Coincide com a chegada da Primavera e da renovação da Natureza. Jamais será esquecido. Os cravos são o símbolo da alegria do povo e dos militares, o símbolo dessa união primordial que conduziu o destino feliz da revolução. Também não perderão tão depressa o seu simbolismo.

E agora, 42 anos depois do dia 25 de Abril, é pertinente perguntar o que representa a data para os portugueses e o que veem eles nos cravos. Os mais novos sabem o que se comemora hoje, graças aos esforços continuados da escola. Menos mal. Mas não lhes podemos pedir que vibrem com a data, que suspirem de alívio e se encham de alegria. Já nasceram com esse dado adquirido que é a liberdade política, de expressão e de pensamento. Não conhecem o medo obscuro da repressão, o perigo inerente a uma sociedade rígida, gerida pelos valores de Deus, Pátria, Religião com total desprezo pela identidade do povo, essa massa anónima que somos todos nós.  Não sabem, mesmo que lhes contemos uma e outra vez. Desconhecem a pobreza e a fome vividas por gerações sucessivas, a falta de tudo que dignifica a vida humana, comida, sapatos, subsídios, ajudas, horários, salários justos, trabalho, educação. De um país sem instrução, em que os filhos eram retirados à escola para os pais os integrarem no mundo do trabalho, passamos nestes 42 anos a um país com escolaridade obrigatória até ao 12º ano. Quantas vocações se terão perdido, naqueles tempos? Quantas pessoas lamentarão hoje não ter aprendido a ler e a escrever… É preciso lembrar isso aos mais novos, que a escola era um privilégio só para alguns e que, confrontados com o duro trabalho nos campos, os rapazes e raparigas desta geração preferiam, claramente, a escola – que alguns não tiveram – porque viviam longe, porque os pais não os deixavam, porque o estado não se importava com eles.

Os mais velhos sabem. O 25 de Abril é um símbolo vivo que desperta ainda o entusiasmo da novidade. Agora, depois de uma obscura época cavaquista, em que o Dia da Liberdade era como uma mancha a graffiti na consciência nacional, sente-se um novo fôlego nas comemorações da data. Este ano, a Associação 25 de abril e os capitães de Abril vão estar presentes, após um interregno que o seu porta-voz explica no jornal Público:

“Havia uma prática política, do Presidente da República, do Governo [PSD/CDS-PP] e da maioria da AR, contra os valores de Abril em que se estava a tentar destruir tudo aquilo que cheirava a Abril. Consideramos que era uma hipocrisia evocar o 25 de Abril juntamente com as pessoas que estavam a proceder dessa maneira”, explicou então à Lusa. Com a mudança de Governo – executivo PS apoiado pelos partidos à esquerda, PCP e Bloco de Esquerda –, a Associação 25 de Abril dá “o benefício da dúvida” e está “esperançada de que a situação melhore”.

Nós acreditamos sempre, continuamos a acreditar que um dia há de ser 25 de Abril sempre, que o nosso país há de extrair da Europa a liberdade de construir a sua economia e o seu caminho. Queremos acreditar que a repressão dos rattings e das quotas da Europa nos deixem respirar de novo, um dia. Porque a liberdade é intemporal e é um valor que se estende à auto-regulação dos estados. Portugal precisa de se libertar do jugo néo-liberalista, de um materialismo desumano, uma roda dentada que esmaga os mais fracos e os mais fracos somos nós. É preciso passar às novas gerações a esperança, essa vontade de agir e de acreditar que a palavra e a instrução são as melhores armas contra os impérios económicos. Só deste modo, o símbolo continuará vivo e, enquanto Portugal conhecer a fome, o desemprego, o abandono e a miséria, os cravos despertarão a esperança sem a qual não há futuro.

Viva o 25 de abril!

Ana Isabel Falé

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