A transliteracia: e a literatura?

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A leitura digital tornou-se hoje uma forma forma corrente de obter informação e de comunicar. Como os novos meios de comunicação são parte integrante das nossas vidas, a leitura literária, ou não, ganhou um amplo alcance no nosso quotidiano dada a facilidade de transportar o suporte digital, mais leve do que o livro em papel, mais presente do que este último e, por conseguinte, capaz de preencher horas de espera e momentos de lazer com a leitura de notícias, artigos, posts ou livros.

Até à data, os dados disponíveis reconhecem a importância do investimento nas literacias digitais para o sucesso económico dos países. Muitos escritores e editores iniciaram já a publicação de e-books e, mais, algumas estruturas educacionais como editoras e escolas também começaram a fazê-lo.

Não restam dúvidas de que os hábitos de leitura se modificaram de forma drástica mas somos obrigados a questionar de que modo é que o uso das novas tecnologias na leitura corresponde a inovações estéticas – na experiência cada vez mais sensível que é ler  – e se os leitores em suporte digital revelam uma maior e melhor literacia.

Segundo Bonacho (2013) (1) a literatura, enquanto elemento de cultura, modificou-se ao longo dos tempos e adaptou-se aos aparatos tecnológicos de forma lenta, mas profunda. Com efeito, a história mostra-nos que cada meio que lhe deu abrigo (vozes, papiros, volumosas encadernações, livros de bolso ou livros electrónicos) alterou não só a forma de leitura mas, principalmente, a nossa própria relação com o conhecimento e com o mundo.

Assim, parece ser necessária a criação de sentido através de uma nova relação entre os meios tecnológicos e os textos. Na verdade, a leitura começa a deixar de estar exclusivamente relacionada com o texto escrito, tal o efeito “perverso” dos suportes digitais: ler é uma passagem de dedos num ecrã digital, um rápido scroll de títulos, de assuntos, de mensagens, de vídeos, de imagens e até de música. São vários códigos semióticos incluídos numa mesma prática a que alguns autores começam a chamar “transliteracia”.  O conceito, que abrange a capacidade de ler, de escrever e de interagir em diversas plataformas, instrumentos e meios de comunicação, é uma perspetiva unificadora da literacia digital a que podíamos chamar informacional mas que, nos dias de hoje, se traduz numa capacidade de “absorver e de criar conteúdos” onde coexistem várias formas de valor tanto objetivas como subjetivas. Neste panorama, ocorre-nos perguntar que lugar ocupa a literatura tradicional, tal como a conhecemos, nesta transliteracia?

A resposta pode encontrar-se, para já, nas vantagens do acesso às obras que já estão no domínio público, na compra de livros a preços inferiores à edição em papel ou no “empréstimo” das bibliotecas digitais, como a do Agrupamento de Escolas Leal da Câmara, que se encontra neste site e merece ser divulgada.

Enfim, seja em que suporte for, a tecnologia não pode sobrepor-se ao universo único da ficção, no qual o leitor é observador e personagem e criador de novos sentidos e de novas leituras, estas mais íntimas e mais próximas da sua necessidade de evasão. A literatura não pode simplesmente desaparecer, ou resistir, na sombra de outras linguagens mais imediatas, tal como nunca desaparecerá a inesgotável imaginação humana.

(1) Bonacho, F. "A transliteracia e os novos sentidos da leitura". In II Congresso "Literacia, Media e Cidadania", Lisboa, Pavilhão do Conhecimento, 10-11 Maio 2013.

Ana Isabel Falé

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