Editorial de Abril

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Neste editorial de abril, vou falar do Alentejo. Não por a região estar na ordem do dia devido ao controverso livro que Henrique Raposo acabou de publicar, Alentejo Prometido, mas por uma razão bem mais simples e subjetiva. Cheguei há pouco de um passeio de dois dias pelo Alentejo e venho com as cores e os sabores da região bem coladinhos a mim. Por isso é de como a paisagem alentejana preenche o meu olhar e entra na minha alma que vos quero falar. O assunto parecer-vos-á estranho, provavelmente. Neste momento estarão mesmo a perguntar: «o que é que o Alentejo faz aqui num editorial do jornal de uma escola que fica em Rio de Mouro?». Talvez seja incomum, sim, assumo o risco, mas, se tiverem paciência para ler este texto até ao final, penso que perceberão a minha escolha.

Passear pelo Alentejo em qualquer altura do ano tem um encantamento especial, porque a planície alentejana é sempre autêntica, dominadora, sedutora e encantatória, mas passear pelo Alentejo no início da Primavera é uma experiência especial e única. É ver as cores do arco-íris brotarem ondeando suavemente da terra, em tons de verde, branco, amarelo e vermelho. É encher as narinas dos cheiros a mar e a vegetação marítima, se pensarmos na costa vicentina ou em todo o litoral alentejano, e dos cheiros a terra, a gado, a sobreiro, a oliveira, a azinheira e a ervas que ondulam e alouram ao sol, se pensarmos no Alentejo interior, que gosto de chamar de Alentejo profundo. É assistir ao voo, ora suave ora acelerado, da enorme diversidade de aves que povoam os céus. É poder abandonar o corpo ao conforto da erva macia e das flores campestres. É acreditar que é possível atingir o horizonte longínquo, tanta é a visibilidade da vastidão da planície. É, essencialmente, encher a alma de frescura, de alegria, de prazer, de pujança, de vida, ou seja, de estímulo para continuarmos com as nossas vidas quotidianas e superarmos as dificuldades com que nos confrontamos todos os dias. Afinal, se a cada Primavera os campos do Alentejo são capazes de se renovar com aquela pujança e beleza por que razão nós não o poderemos fazer também?

Foi tudo isto que a paisagem alentejana me deu em apenas uma viagem de dois dias, em que estive em S. Torpes, Porto Covo, Vila Nova de Milfontes, Santiago do Cacém, Beja e Évora. É tudo isto que a paisagem alentejana me dá em cada regresso, em cada reencontro. Sem pedir nada em troca. Basta partir e, atualmente, as estradas, mesmo as nacionais, estão fabulosas, a gastronomia alentejana é um pecado que queremos cometer e o Alentejo é tudo aquilo que descrevi, e ainda mais, muito mais, e está logo ali, à nossa espera, com a generosidade do costume e a simpatia das suas gentes. E é tudo isto que trago para o meu dia-a-dia, agora que estamos a iniciar o terceiro período letivo, o que é muito bom, muito bom mesmo. Porque o terceiro período letivo chega todos os anos em velocidade acelerada, fazendo-nos sentir a irremediabilidade da passagem do tempo e anunciando a correria que serão os meses de abril e maio, com os conteúdos programáticos para terminar, a preparação de muitos alunos para exame, as avaliações finais para atribuir e o novo ano letivo para preparar. Tudo praticamente em simultâneo e com prazos apertados, o que nos faz sentir, em cada ano, que é mesmo daquela vez que não vamos conseguir resistir ao excesso de trabalho próprio do último período letivo. Mas a verdade é que resistimos ano após ano e, para que isso aconteça, precisamos de ter a alma cheia de coisas boas. E é aqui que entra a paisagem alentejana. Ela pode ser uma dessas coisas boas com que enchemos a alma. Para mim, é.

Tenham um excelente recomeço.

4-04-2016

Lucinda Santos

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