Crónica do Regional de Surf do Desporto Escolar

surf-praia do baleal

“O frio é psicológico!”, dizia eu aos meus corajosos alunos que, no caminho para a terra que deu fama mundial às praias portuguesas, sentiam a chuva a bater nos vidros do autocarro e as baixas temperaturas a passar pelas frestas das janelas, embaciadas e pingadas.

E o prometido foi devido: durante todo o II Campeonato Regional de Surf do Desporto Escolar 2015/16, entre escalões masculino e feminino, surf e bodyboard, principiantes e “pros”, o fresquinho do Oeste não parou de fustigar professores, alunos, juízes e restantes organizadores.

Após a chegada à baía do Baleal, acomodamo-nos como pudemos, colocando mochilas, fatos e pranchas, sob tendas abertas montadas pela organização para os alunos deixarem os seus pertences.

Apesar do malfadado clima de Peniche e da longa espera para vermos o primeiro representante da nossa escola a entrar na água, ninguém desanimou e o sentimento de pertença a um coletivo que já vem treinando junto desde outubro, emergiu e fez este vosso interlocutor encher-se de orgulho ao se deparar com um cenário de solidariedade espetacular: um aluno na água e todos os colegas na beira-mar, tal como o nosso país, plantados, a levar com bátegas de agulhas líquidas de água gelada, sem arredarem pé, até que a buzina apitasse para dar por terminado o “heat”! Enquanto um está no mar, estamos todos com ele.

Só não foi sempre assim, porque momentos houve em que estiveram 3 alunos a competir  ao mesmo tempo, mas em provas diferentes (surf juvenil, surf principiantes e bodyboard). Nestes momentos de divisão de atenções, o apoio ficou confundido, mas o espírito não! Esse foi sempre o de partilha de emoções, sacrifícios e… Frio, sempre o frio!

E se o Regional teve desafios na água, também os teve em terra, onde recuperar era a palavra de ordem entre um dia e o outro. Após o primeiro dia de competição, havia banhos para tomar, jantar para retemperar forças e o inevitável convívio no Hotel dos Serviços Sociais da PSP no Baleal.
Comparado com outros encontros deste género, o de Peniche é aquele que nos oferece melhores condições para pernoitar, pois estas instalações balneárias, cedidas muito amavelmente pela PSP e Câmara Municipal de Peniche, permitem aos professores e alunos acomodarem-se em quartos duplos e triplos com casa de banho, em vez das habituais salas de aula com colchões.

O segundo dia chegou e com ele, todas as decisões. O frio continuou mas a chuva parou e os nossos alunos deram mostras, mais uma vez, da fibra de que são feitos.

Para quem pensa que o surf é andar bronzeado na praia com a prancha debaixo do braço, experimente fazer o que eles fizeram: chegue à praia num dia de Inverno às nove da manhã, com nove graus, tire a roupinha quentinha e meta-se dentro de um fato molhado (que não secou do dia anterior!) e depois enfie-se no mar revolto e gelado, para disputar ondas com mais três pessoas durante 15 minutos… Depois saia, espere pelo resultado com o fato molhado no corpo e, caso passe à eliminatória seguinte (quase todos os nossos participantes disputaram 3 eliminatórias), aguarde mais 30 a 40 minutos ao frio com o belo do fatinho no pelo.

Medalhas? Não tivémos. Campeões? Também não. Vencedores? Fomos todos! Ganhámos tudo o que de bom havia para ganhar, excepto medalhas. Vencemos desafios extraordinários, batalhas pessoais incríveis, lutas com a natureza fantásticas e, mais importante que tudo: saímos de Peniche mais fortes, mais competentes e ainda mais amigos uns dos outros!

Obrigado à nossa super competente e muito elogiada juíza Patrícia Campos; ao nosso muito esforçado e renovado Lucas Lino; às nossas estreantes e resistentes  bodyboarders Sara Cartas e Catarina Borges; à nossa corajosa e otimista Raquel Cartas; ao nosso espetacular e experiente bodyboarder Gil Peraboa; ao nosso principiante lutador e quase vencedor Sandro Martins; aos valentes e muitíssimo competentes surfistas Diogo Rodrigues e Rodrigo Santos; e ao nosso principiante surpreendente mas desistente (não aguentou o cansaço e o frio no segundo dia) Rodrigo Figueiredo!!!

A todos o meu reconhecimento e orgulho!

Dia 8 e 9 de abril há mais… Na Costa de Caparica:)))

Miguel Montalvão

 

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2 Comments

  1. Excelente crónica! Quem me dera ter estado lá para vos aplaudir. Mesmo com frio, o Baleal é um daqueles lugares de onde regressamos sempre de alma cheia.
    Parabéns a todos!
    Manuela Martins

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  2. Através de palavras claras, numa crónica extremamente pedagógica, repleta de entusiasmo e de afetos (pelos alunos, pelo surf, pela vida), o professor Miguel Montalvão mostra-nos os principais objetivos de atividades como a que tão bem descreve. «[…]saímos de Peniche mais fortes, mais competentes e ainda mais amigos uns dos outros!», diz ele, e diz bem. De facto são estas as medalhas que devem motivar os nossos alunos (e todos nós) a participar em qualquer atividade. Se, ainda por cima, conseguirem (conseguirmos) ganhar as outras, as de latão, prata ou ouro que colocamos ao peito, melhor ainda. Mas são sobretudo as primeiras que dão sentido às nossas vidas. Muito obrigada, Miguel, pelo testemunho. Gostei de ler.

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