Texto expositivo-argumentativo: o perigo das generalizações

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A polémica instalou-se entre quem defende a liberdade de expressão e quem acha que o livro Alentejo Prometido de Henrique Raposo é um amplo conjunto de banalidades sobre esta parte do nosso país.

Não concebo que se utilizem as redes sociais para o comentário insultuoso, nem sou de redes sociais, muito menos de insultos. Porém, lendo o excerto do livro em questão, tive vontade de mandar um recado suave e objetivo ao referido autor. Aliás, até me deu vontade de alinhar uma quantidade razoável de asserções especulativas sobre, por exemplo, os ribatejanos, gente que conheço quase tão bem como o autor conhece os alentejanos.

A verdade é que Henrique Raposo comete um erro que é de suma importância evitar, quando procuramos aproximar-nos objetivamente de realidades não objetiváveis.  A tentação da generalização é o que condena um texto que se pretende isento e expositivo a transformar-se numa má crónica de costumes.

Vejamos. Lê-se na obra que a maioria da população alentejana encara o suicídio como um fenómeno natural, tão natural como o vento: “os genes até poderão explicar porque é que alguns alentejanos cometem suicídio, mas não explicam porque é que a maioria dos alentejanos não critica o suicídio;” . Não sei se será assim.  Em primeiro lugar, surge uma asserção pouco consistente. Ninguém pode afirmar com rigor o que uma maioria critica ou não critica, simplesmente porque os seres humanos não opinam em coro, consoante a localização GPS e segundo padrões mensuráveis.

Em segundo lugar, há situações que não são matéria criticável. O suicídio em si tem uma dimensão moral e ética de cariz religioso. Logo, não se critica, concebe-se ou não se concebe o suicídio nos códigos morais de natureza individual.  Poderão ser criticadas as pessoas que o praticam, mas ainda assim, com que base teórica afirma Henrique Raposo que os alentejanos não o fazem? Além disso, criticar a ação de alguém que agiu por desespero é o mesmo que passar por cima de todas as razões dramáticas inerentes ao ato. Perante a morte, qualquer morte, só existe o silêncio e o pudor. Nada mais.

De resto, o Alentejo, como qualquer outra região do país, apresenta uma realidade que não se mete facilmente num frasco lacado com rótulos abrangentes.  Dizer que faz parte da alma de um povo a cultura do suicídio e a indiferença à morte, por exemplo, pressupõe no mínimo uma tese e uma demonstração. É como afirmar que todos os pontos luminosos do céu são estrelas com base na sua aparência lustral. Ou que todos os judeus são mesquinhos e todos os árabes terroristas ou todos os ingleses frios e os alemães racistas. Lugares comuns não servem de ponto de partida para um trabalho jornalístico sério.

Além disso, se queremos falar sobre estas questões e outras, como a possível aceitação da violação por parte das mulheres alentejanas ou sobre a falta de amor aos filhos na sua dimensão de crianças,  utilizemos dados, citemos estudos anteriores, façamos entrevistas, comparemos resultados ou então a argumentação é construída com base em pressuposições não confirmadas.

Em suma, o que o autor faz  é realizar deduções valorativas, asserções e generalizações baseadas na observação direta de uma ou outra situação presenciada, uma estratégia argumentativa de base pouco sólida, conforme já nos habituamos a desaconselhar aos nossos alunos.

Um olhar ainda relativo ao sugestivo título Alentejo Prometido, que à partida nos mostra as terras de Além Tejo como um lugar bíblico ainda por descobrir. Será porventura graças a ele que se nos aguça o apetite pela leitura do texto. De facto, todas as terras subdesenvolvidas, subaproveitadas e subalimentadas podem vir a ser terras prometidas desde que alguém as erga e as dignifique. E o Alentejo, com tanto potencial humano, material e imaterial, bem pode vir a ser uma terra prometida.

Louvores sejam dados ao autor se nos mostrar o caminho. O lançamento da obra vai ocorrer amanhã, dia 9, na Livraria Bertrand das Picoas.

Nota:

Quem não conhece a questão gerada por esta obra pode atualizar-se, lendo o excerto que foi dado em pré-publicação ao jornal Observador.

http://observador.pt/especiais/no-alentejo-suicidio-natural/

Ana Isabel Falé

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Um pensamento sobre “Texto expositivo-argumentativo: o perigo das generalizações

  1. «Perante a morte, qualquer morte, só existe o silêncio e o pudor. Nada mais.». Não posso estar mais de acordo com esta afirmação. De facto, muitas vezes, nas sociedades atuais, olhamos para as coisas com pouca atenção. Somos muito ruidosos, mas pouco reflexivos e pouco profundos, o que nos leva, por vezes, a fazer afirmações levianas, reveladoras de uma certa arrogância e de uma certa ausência de pudor, as quais, por respeito às pessoas e também a nós próprios, devemos evitar. Espero que a leitura integral do livro Alentejo Prometido de Henrique Raposo acabe por contrariar ou, pelo menos, suavizar a ideia com que ficamos dele pela leitura do excerto pré-publicado pelo Jornal Observador.

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