O mundo é um lugar perigoso para as crianças

medo

Manifestação contra a presença da troika em Outubro de 2012 – ENRIC VIVES-RUBIO

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As notícias desta semana ainda não esfriaram na nossa memória e, provavelmente, continuarão a queimar-nos ainda durante muito tempo como brasido incómodo: a violência doméstica, a depressão coletiva de um país refém da Europa que nos quer, a todo o custo, desprotegidos e úteis à sua demanda império-liberalista. Mas, na impossibilidade de passar tudo a pente fino, detenho-me no sinal maior da situação que vivemos.

Desde logo, o colapso da segurança familiar, visível no filicídio, uma nova doença social ou patológica, talvez as duas, sinal de uma doença ainda maior que leva à desorientação das famílias, no cenário de depressão coletiva que a crise económica favorece.

Elo mais frágil da sociedade, são as crianças as primeiras vítimas. Ninguém ouve a tempo os seus gritos, ninguém sabe ler no curso fatal das suas vidas, nem ver nos olhos dos progenitores as suas intenções desesperadas. Por mais instituições que se criem e por mais processos que se instaurem, quem tem o dever moral de proteger as crianças é a família e, quando esta colapsa e se transforma em perigo para os menores, não há mais ninguém que possa intervir no momento certo.

Assim sendo, parece evidente que uma das maiores falhas do nosso sistema social é o da prevenção do desgaste familiar. A triste verdade é que as agressões e abusos no seio da família ocorrem no limbo de um espaço íntimo que devia proporcionar conforto, confiança e bem-estar, mas onde os potenciais salvadores são precisamente os agressores. E nunca há ninguém por perto no momento crucial.

Só um forte sentido de contensão e de autocontrolo por parte dos membros da família pode evitar as tragédias. Quarenta e oito mulheres mortas por violência doméstica em 2015. O ano em curso já leva uma boa dezena de casos. Falta de amor? Amor egoísta, sentido de posse?

Talvez, mas na verdade pode ser o medo que cava profundamente o desentendimento das famílias: o medo da perda do outro, da perda dos afetos dos filhos, acompanhada de solidão e de isolamento, talvez mesmo de dificuldades de subsistência, o medo de falhar, de não ter já lugar na sociedade, o medo da falta de opções. Ora, do medo ao uso da violência vai um breve passo. E, depois, tudo o mais é possível, desde a agressão, às ameaças e à morte, corolário trágico da desagregação familiar.

Neste cenário, a criança é muitas vezes o valor acrescentado que tapa a solidão, tapa a tristeza, tapa a falta de amor, mas nunca é, em si, criança, um ser indefeso que tem direito a cuidados, a crescer e a ser feliz. Lamentavelmente, e sem moralismos de classe média, o mundo é um lugar perigoso para as crianças.

Um pouco por todos os continentes têm-se sucedido casos semelhantes ao das meninas que morreram afogadas na praia de Caxias. Por depressão, por compaixão ou por patologias próprias, há mulheres que a dada altura das suas vidas optam pelo seu suicídio com os filhos ou simplesmente atentam contra a vida deles.

Podemos encontrar  aqui  e aqui  notícias sobre casos que abalaram o nosso país ou aqui e aqui, no mundo, ao longo de várias décadas.

Recordem-se também os efeitos da doença de Munchausen: a mãe inventa e provoca sintomas nos seus filhos para obter ajuda médica e atenção, a ponto de lhes provocar mesmo a morte que tanto receia.

Sim, o mundo é um lugar perigoso para as crianças. Criá-las implica dedicação, sacrifício, devoção absoluta. Porém, alguns adultos não se sentem preparados para abdicar da sua liberdade e dos seus prazeres. Esta semana desapareceu também uma criança que se encontrava só, de noite, num apartamento de um 21º andar. Tão perto do céu! Mas os pais, senhor, os pais jogavam num casino…

É ponto assente que a natural insatisfação do ser humano, aliada à frustração social, tende a agravar-se em conjunturas sociais difíceis e pode levar a formas gravíssimas de depressão e fuga, nos fármacos, no álcool, na droga e no jogo. Porém, segundo António Coimbra de Matos, estudioso da depressão, em entrevista ao Jornal Público, “Temos é de ter sucesso em algumas coisas que fazemos. Se só se tem insucesso isso deprime, causa mau estar. Os americanos falam muito dos três “g”, a propósito do amor. Good, giving and game. Bom, generoso e divertido. O mundo deve ser bom, generoso e divertido.”

Mas, quando o mundo não corresponde ao que esperamos, e nunca corresponde, não conseguimos reduzir a frustração e desenvolver a capacidade de espera ou, em alternativa, desencadear a revolta sob uma saudável forma de ação que nos crie opções, talvez não as que queremos mas as que podemos ter.

Era preciso que a sociedade conseguisse incutir valores às novas gerações, sim, (o respeito pelo outro, pelo género, pela família, pela vida) mas mais do que isso, era preciso educá-las para a resistência à frustração, para a persistência e para a ação social, evitando-se assim que seja a autodestruição a primeira das formas de proteção contra o sofrimento.

Ana Isabel Falé

 

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