Sobre a essência do Amor

S_Valentim

«Do seu Valentim», terá escrito o bispo romano Valentim à sua amada, Artérias, antes de ter sido decapitado, a 14 de fevereiro do ano 270, por ter ousado continuar a celebrar casamentos após a proibição de o fazer dada pelo imperador Cláudio II, para que, libertos das amarras do amor, os jovens mancebos se alistassem no seu exército.

Apesar de os acontecimentos acima referidos não poderem ser comprovados historicamente, em alguns países, devido sobretudo à ação dos agentes comerciais, sequiosos de encontrarem um motivo para faturar, passou a consagrar-se o dia da morte de este S. Valentim (há pelo menos três santos martirizados na Roma Antiga denominados Valentim), dia 14 de fevereiro, como o dia dos namorados ou como o dia dos afetos, tendo acabado por se eternizar também a expressão «De seu Valentim» como sinónimo «de seu/teu amor».

Sobre a história de amor acima narrada, falta referir que, quando conheceu Valentim, Artérias era cega e, com a descoberta do amor, Artérias, miraculosamente, ou, atrevo-me a dizer, através da força mágica e transformadora do amor, curou-se da cegueira.

Fantasiosa ou verdadeira, a história de amor entre Artérias e Valentim, independentemente da tendência ou da recusa em celebrarmos o dia 14 de fevereiro como dia dos namorados ou dia dos afetos, oferece-nos uma oportunidade para lembrarmos a essência do amor, tantas vezes sentida de maneira absolutamente enviesada, para não dizer absolutamente errada, por muitas pessoas: basta lembrarmos as atitudes e os atos verdadeiramente infelizes  pressupostamente praticados sob a égide do AMOR.

Da essência do amor, seja qual for a sua dimensão (amor romântico, amor filial, amor fraternal, amor familiar, etc.) apenas podem constar o afeto, a dádiva, a compaixão, o entendimento, a caridade, a piedade, a sabedoria, a paciência, a bondade, a coragem, a esperança, o entendimento e a aceitação do outro. Não podem constar a raiva, o desentendimento, o ciúme, o sentido de posse, a rejeição, a violência ou o balizamento do outro – feito, pressupostamente, à medida de quem ama.

Os primeiros componentes são os que deram luz aos olhos de Artérias porque conseguem fazer com que tanto a pessoa que ama como a que é amada descubram o que há de melhor em si, cresçam no sentido do bem e espalhem o afeto, a compaixão, a alegria, a magia e a esperança.

Os componentes rejeitados são os que fazem com que tanto a pessoa que pressupostamente ama como a pessoa que pressupostamente é amada descubram o menos bom que há em si e vivam em permanente conflito, interior ou/e com os outros, na desconfiança, na coação da liberdade e na tentativa de transformação do outro em algo que este não é. São relacionamentos com estas características que levam à violência doméstica, à depressão e à infelicidade de inúmeras pessoas. O número de vítimas de violência doméstica que todos os anos é difundido nos vários meios de comunicação social provará o que digo e é pungentemente assustador.

Quem ama é altruísta, conforta, cuida, alegra, liberta, adivinha os desejos e os sonhos da pessoa amada e faz tudo para que esta os consiga concretizar, mesmo que a concretização desses desejos e desses sonhos implique algum tipo de sofrimento para si próprio. Quem viu o filme francês realizado por Eric Lartigau A família Bélier, estreado em Portugal no verão de 2015, percebe bem o que estou a dizer. Apesar da falta que Paula faz à sua família, esta compreende a importância do seu sonho e deixa-a voar para que o possa concretizar.

O amor retratado no filme A família Bélier e o amor que deu luz aos olhos de Artérias, contrariando o ditado popular que tem atravessado os tempos e diz que «o amor cega», é o amor na sua verdadeira e única essência, é o que nos ilumina e nos eleva a uma dimensão quase etérea e o único pelo qual devemos viver e morrer, se for caso disso. O resto de que falámos aqui, as atitudes e ações que magoam não têm nada a ver com amor. Temos a certeza.

Feliz dia 14 de fevereiro de 2016.

Lucinda Santos

Imagem de destaque: Pintor  Caspar David Friedrich (1774-1840)

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