Como Camões, Garrett e David Mourão-Ferreira nos disseram o AMOR

 

Imagens retiradas da Internet

 

Neste dia em que se celebra o amor, gostaria de lembrar três escritores portugueses que o cantaram de modo absolutamente sublime. São eles Luís Vaz de Camões (1524-1580), João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854) e David de Jesus Mourão Ferreira (1927-1996). Embora separados por séculos, os três escritores têm também em comum a imensa paixão que tinham pela vida, mostrando, através do seu percurso, que esta deve ser vivida com intensidade em todos os seus momentos.

Camões é reconhecido como o poeta-guerreiro/o poeta-soldado apaixonado. Apaixonado pela pátria, não fosse ele o autor da epopeia que melhor canta «o peito ilustre lusitano», Os Lusíadas; apaixonado pela vida, por isso a viveu intensamente em várias das suas dimensões (consta que frequentou a corte, esteve preso, viajou para o oriente, sobreviveu a um naufrágio, teve muitos amores e os mais nacionalistas gostam de dizer que morreu de desgosto quando soube da perda da independência de Portugal em 1580); apaixonado pela escrita – para o comprovar está a vasta obra que nos deixou, que vai do texto lírico e do texto épico ao texto dramático, tendo eternizado o soneto como uma das composições poéticas em que melhor cabem as vivências do amor; e apaixonado pelas mulheres, por muitas e variadas, desde a mulher idealizada na época, branca e loira, de rosto e de olhar serenos, à mulher negra, «pretidão de amor», de «doce figura», como era a escrava Bárbara, eternizada pelo poeta na composição «Endechas a Bárbara cativa». Apaixonado pelas mulheres que infligiram um sofrimento maior à sua vida, a qual, segundo escreveu, já seria suficientemente triste por outros motivos: «erros meus, má fortuna, amor ardente/em minha perdição se conjuraram;/Os erros e a fortuna sobejaram,/Que para mim bastava o amor, somente.» (versos do soneto «Erros meus, má fortuna, amor ardente»).

Dois séculos depois, Portugal dá ao mundo mais um apaixonado pela vida, João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, o primeiro Visconde de Almeida Garrett. Detentor de uma cultura ímpar, Almeida Garrett foi escritor, orador, jornalista, secretário de estado e ministro e, tal como Camões, soldado – participou na revolução liberal de 1820 -, não se inibindo de, simultaneamente, ser vaidoso – um dândi/um janota – e viver uma panóplia de paixões arrebatadores, algumas das quais mal vistas na sociedade preconceituosa da época, as quais acabou por eternizar através da escrita, oferecendo de mão beijada ao mundo uma poesia sensual, sedutora, arrebatadora e de qualidade superior. Luísa Cândida Midosi, Adelaide Deville e Rosa de Montúfar foram três mulheres que despertaram em Garrett paixões desmedidas, sobretudo a última, que, segundo consta, manteve o casamento com Joaquim António Velez Barreiros, primeiro Barão e primeiro Visconde de Nossa Senhora da Luz, enquanto vivia uma paixão fulgurosa com Garrett, cuja intensidade passou para o último livro de poemas escrito pelo autor, Folhas Caídas. A identificação da poesia, absolutamente carnal e avassaladora, com a índole da relação que Garrett vivia com Rosa de Montúfar, originou um escândalo de proporções gigantescas, explicado sobretudo pela sociedade preconceituosa da época, que não perdoou a Garrett a grande ousadia de viver uma paixão tardia – Garrett tinha 47 anos quando iniciou este relacionamento – e muito menos a enorme ousadia de escrever a partir dela. De facto, os versos dos poemas de Folhas Caídas eram/são absolutamente avassaladores, como podemos constatar pela transcrição de alguns deles: «Ai! não te amo, não; e só te quero/De um querer bruto e fero/Que o sangue me devora,/Não chega ao coração.» (versos do poema «Não te amo, quero-te»); Que, um só momento que a vi,/Queimar toda a alma senti…/Nem ficou mais de meu ser,/Senão a cinza em que ardi.» (Versos do poema «Seus olhos»); «Minha razão insolente/Ao teu capricho se inclina,/E minha alma forte, ardente,/Que nenhum jugo respeita,/ Covardemente sujeita/Anda humilde a teu poder» (versos do poema «Anjo És»); «A ti! ai, a ti só os meus sentidos/Todos num confundidos/Sentem, ouvem, respiram;/Em ti, por ti deliram/Em ti a minha sorte,/A minha vida em ti;/E quando venha a morte,/Será morrer por ti.» (versos do poema «Cinco sentidos»).

O escândalo foi de tal modo que a coletânea de poemas Folhas Caídas foi parodiada através da publicação, em 1854 – ano da morte de Almeida Garrett – , do livro Folhas Caídas Apanhadas a Dente e Publicadas em Nome da Moralidade, de Pedro Dinis, sob o pseudónimo de Amaro Mendes Gaveta, e  do livro Folhas Caídas Apanhadas na Lama, escrito por Camilo Castelo Branco, também sob pseudónimo, revelando não só o nível de preconceito da sociedade contemporânea de Garrett como também a malvadez, a inveja e a falta de capacidade de compreensão da qualidade da poesia de Garrett, cujo valor, como acontece com a maior parte dos artistas, não foi reconhecido pelos seus contemporâneos.

Herdeiro maior dos talentos vários de Camões e Garrett e confesso admirador dos dois, sobretudo deste último, muito devido a interesses que partilhavam (o trabalho realizado por ambos em prol da cultura e dos direitos de autor, o amor pelo teatro, o fascínio pelas mulheres e algumas características poéticas), é o terceiro escritor de quem vou falar, mas o primeiro nas minhas preferências de leitura: David de Jesus Mourão-Ferreira.

Tal como Camões e Garrett, David Mourão-Ferreira viveu intensamente e com absoluto assombramento a sua vida. Foi escritor – escreveu poesia, teatro, ficção e ensaio – jornalista, Secretário de Estado da Cultura (de 1976 a Janeiro de 1978, e em 1979), autor e apresentador de programas radiofónicos e televisivos e assumia-se como um homem que amava as mulheres, tendo-se reconhecido no filme que François Truffaut, outro grande apaixonado pelo sexo feminino, realizou em 1977, com o mesmo nome O Homem que Amava as Mulheres. E amava-as tanto que fez delas o tema maior da sua poesia, que é masculina, sensual, erótica, mas, ao mesmo tempo, imensamente ternurenta e respeitadora das mulheres. David Mourão-Ferreira passa na sua poesia muito, se não todo, o genuíno deslumbramento que tem pelas mulheres. Para confirmar o que digo, basta ler alguns dos deslumbrantes versos que, para nosso gáudio, escreveu: «Mais do que sonho: comoção!/Sinto-me tonto, enternecido, quando, de noite, as minhas mãos/são o teu único vestido.» (versos do poema «Penélope»); «Só por dentro de ti há corredores/e em quartos interiores o cheiro a fruta/que veste de frescura a escuridão…/Só por dentro de ti rebentam flores,/Só por dentro de ti a noite escuta/o que sem voz me sai do coração.» (versos do poema «Casa»); «Deitada és uma ilha Que percorro/descobrindo-lhe as zonas mais sombrias/Mas nem sabes se grito por socorro/ou se te mostro só que me inebrias/Amiga amor amante amada eu morro/da vida que me dás todos os dias» (versos do poema «Ilha»); «Em ti a profusão/do que a alma procura/ A água O vinho O pão/ O leite O mel A fruta» (versos do poema «A um corpo»).

David Mourão-Ferreira, Almeida Garrett e Luís Vaz de Camões, os três poetas que tive vontade de lembrar, ofereceram a Portugal e ao mundo alguns dos mais belos poemas de amor escritos em língua portuguesa. Por isso, sinto sempre que lhes devemos um agradecimento muito sentido, o qual nem sempre fazemos da melhor maneira. E a melhor maneira de o fazermos é através da leitura e da divulgação da sua obra. Foi isto que procurei fazer, hoje, neste dia 14 de fevereiro de 2016, em que, por vicissitudes do calendário e do comércio, me senti impelida a falar de AMOR. Espero que o texto que escrevi motive muitos leitores a fazer o mesmo que eu. Será um prazer, acreditem, porque os três escritores são absolutamente fascinantes.

Lucinda Santos
Imagem de destaque: pintura de Gustav Klimt (1862-1918)

 

Um poema de cada um dos autores…

 

Tanto do meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
Num’ hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um’ hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora

                                                      Camões

Os Cinco Sentidos

São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!

Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!

Respira – n’aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste,
Sei… não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão… mas é de beijos,
É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti! – em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

Almeida Garrett, em ‘Folhas Caídas’

Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.
E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

David Mourão-Ferreira, em “Música de Cama”

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