“A Farsa de Inês Pereira” – Reportagem

Foi ontem levada à cena a peça de Gil Vicente que o Grupo de Teatro Reticências tem vindo a ensaiar desde o início do ano. Com o Auditório repleto de alunos e professores da Leal e do Colégio Vasco da Gama, entre trezentas a quatrocentas pessoas assistiram à peça em cada uma das duas sessões.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O cenário apresentava um toque contemporâneo que mostra o interior da casa de Inês em dois planos, estando esta e a mãe, a espaços, numa posição mais elevada relativamente às outras personagens. Acrescente-se a existência de mais dois planos laterais, onde se inseriam as personagens secundárias e, mais atrás, os figurantes.

A música e os efeitos de som acompanharam bem a movimentação de palco, com um toque de atualidade que ajudou certamente o público a identificar o perfil social das personagens. Guarda-roupa entre o moderno e o antigo que nem por isso deixou de caracterizar bem as personagens.

Porém, na interpretação da peça, o que mais surpreendeu foram as vozes e o talento de alguns dos jovens atores. Entoação perfeita, tom de voz alto e bem timbrado e uma dicção que nos permitiu acompanhar os difíceis diálogos vincentinos. Muita expressividade e descontração, sobretudo nas figuras do Escudeiro e de Pero Marques, em que a displicência e malandragem do primeiro e a ingenuidade do segundo são acompanhadas de notas interpretativas muito pessoais. Um bom equilíbrio na parceria dos dois judeus e na gestão do cómico inerente a estas personagens.  A movimentação dos figurantes assegurou alegria e manteve sempre desperta a atenção do público.

As diferentes partes da peça foram demarcadas com o recurso a duas atrizes para o papel de Inês. Inicialmente, a Inês fantasiosa é apresentada por duas atrizes em diálogo. Tanto a Inês desdenhosa e altiva como a Inês mal-casada são representadas por uma delas. A Inês já viúva e a desforrar-se dos sofrimentos do seu primeiro casamento é representada pela outra atriz, sendo ambas vivas e expressivas.

Foram momentos muito agradáveis e gratificantes ante a capacidade de realização e o empenho que pudemos testemunhar. Uma nota ainda para o público: pacífico e atento da parte da manhã, mais ruidoso e exuberante na sessão da tarde, menos envolvido na ação dramática.

Recorde-se que a peça, um texto que  os alunos do 10.ºano estão a estudar em sala de aula, é uma comédia de caráter e de costumes que retrata a vida doméstica da sociedade do século XVI e critica sobretudo as jovens burguesas, ambiciosas e insensatas e os falsos escudeiros, tiranos e ambiciosos, malandros, galanteadores, bem-falantes e cantadores, mas superficiais e covardes. As alcoviteiras, alvo frequente da sátira de Gil Vicente, são representadas por Lianor Vaz, à qual se juntam os judeus casamenteiros, Latão e Vidal, com o seu linguajar e atitudes características, sempre ditadas pela antevisão do ganho fácil. O clero popular também é satirizado, através da figura do ermitão sedutor.

De resto, Gil Vicente esmera-se em compor o contraste entre Pero Marques, o primeiro pretendente, camponês rústico, provinciano, meio bobo, mas honesto e com boas intenções, e Inês Pereira, calculista, frívola e ambiciosa – uma rapariga fútil e insensata, a quem a experiência veio proporcionar uma  lição de vida.

Na apresentação da peça, pelo próprio dramaturgo, lê-se:

“A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. João, o terceiro do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, na era do Senhor 1523. O seu argumento é que, porquanto duvidavam certos homens de bom saber, se o Autor fazia de si mesmo estas obras, ou se as furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse: é um exemplo comum que dizem:

Mais vale asno que me leve que cavalo que me derrube.

E sobre este motivo se fez esta farsa.

Com encenação de Rui Mário e dos professores Fátima Monteiro e Manuel Alves, o Teatro Reticências é de há muito tempo o Ex-Libris da Escola Secundária Leal da Câmara. A sua história vai ser o tema de um próximo artigo, em que entrevistaremos os seus mentores.

Algumas escolas têm outras coisas importantes, outras vocações, outros valores e alguns troféus, mas não têm um Grupo de Teatro que, valentemente, se lança na aventura de desbravar e dar vida a novos textos, por mais difíceis que estes sejam.

Reportagem de Ana Isabel Falé e Sandra Guérin

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s