Entrevista com a sobrinha de Fernando Pessoa

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Fernando Pessoa visto por uma sobrinha é o que nos apresenta uma entrevista do jornal Observador de 23 de novembro que poderá ser lida AQUI.

O poeta morreu a 30 de novembro de 1935, quando Manuela Nogueira tinha apenas dez anos. Volvidos oitenta anos, a sobrinha recorda-o como um homem  que a mimava e a presenteava com chocolates e poemas engraçados. Conta-nos como as pessoas da época o consideravam um verdadeiro “gentleman”, muito educado, que tratava as pessoas sem distanciamento, com a naturalidade das pessoas simples.

O seu depoimento desmistifica algumas ideias preconcebidas que a falta de certezas sobre a vida do poeta foi tecendo. A sua morte não terá ocorrido devido a uma cirrose no fígado mas sim devido a um problema intestinal conhecido como a dor de volvo; o amor por Ofélia terá sido realmente um grande amor; o poeta não se casou, porque este estado civil não se coadunava com a necessidade que tinha dentro de si de edificar a sua obra. Trabalhava para sobreviver com uma peculiar eficiência e uma rapidez extraordinária. Tinha horários flexíveis, acordados pelo respeito que lhe tinham os seus empregadores.

O poeta passou pela vida deixando de si a famosa arca e as memórias dos familiares. “Ninguém aprecia as personagens quando elas cá estão.” – diz Manuela Nogueira.

Dessa famosa arca, ficamos a saber que foi mexida e remexida por intelectuais, nunca pela família. “Para a minha mãe, era sagrada. Depois vieram do Ministério da Educação estragar o que lá estava e baralharam tudo.” diz-nos a sobrinha. Apesar de ter previsto a sua morte por essa altura, o poeta não teve tempo de organizar os seus papéis. Mas que importam as circunstâncias, que importam as certezas, quando o único sentido das coisas é “não terem sentido nenhum“?

Poema XXXIX

O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).- 63.
“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.

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