Competências & Conteúdos

A propósito de uns folhetos produzidos pelo 11º C5 em Português…

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WIN_20151118_155113A escola é o espaço onde se espera que o aluno comece a configurar a sua inclinação para determinada área, profissão, forma de estar no mundo.  E tal percurso, sabemos, deve muito à aquisição de competências, um “saber fazer” que  resulta de práticas orientadas para a aplicação dos conhecimentos adquiridos em situações do quotidiano.

Segundo Perrenould, da Universidade de Genebra, “competência é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades, informações etc) para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações.

O autor cita  os exemplos que abaixo se expressam:

Saber orientar-se numa cidade desconhecida mobiliza as capacidades de ler um mapa, localizar e localizar-se, pedir informações ou conselhos e os seguintes saberes : ter noção de escala, elementos da topografia ou referências geográficas.”

“Saber curar uma criança doente mobiliza as capacidades de observar sinais fisiológicos, medir a temperatura, administrar um medicamento  e os seguintes saberes : identificar patologias e sintomas, primeiros socorros, terapias, os riscos, os remédios, os serviços médicos e farmacêuticos.”

“Saber votar de acordo com seus interesses mobiliza as capacidades de saber ouvir, ler, informar-se e saber analisar discursos criticamente e os seguintes saberes : instituições políticas, processo de eleição, candidatos, partidos, programas políticos, políticas democráticas etc.”

Assim, nos exemplos anteriores, é visível a necessidade de conjugação de capacidades e de saberes, ou seja, competências e conteúdos. Mas, estarão os nossos programas e currículos escolares orientados para esta conjugação? É que, para além da conquista de uma elevada nota final para prosseguimento de estudos, existe a necessidade urgente da aquisição de competências, sejam de estudo, sejam de comunicação ou de socialização.

Esta necessidade parece ter ficado esquecida em muitos dos programas de ensino que se encontram fortemente radicados em conhecimentos. No de Português, por exemplo, foram abolidas as palavras  “competências” e “descritores de desempenho”. Em seu lugar, foram introduzidos  itens como “domínios” e  listagens infindas de “tópicos de conteúdo”. Ora, ainda que na sua essência as competências estejam implícitas, a verdade é que o ponto forte deste programa é o ensino daqueles contéudos, enquanto metas a aplicar a todos, de norte a sul e onde quer que haja uma escola portuguesa. Porém, um ensino que se limita a debitar e a exigir conteúdos é um ensino pobre e só pode conduzir à formação de cidadãos pobres.

Mais, a questão das metas sugere-me uma tentativa de massificação, uma espécie de farda cinzenta que se espera sirva a todos, seja como e onde for. Ainda Perroud: “Os seres humanos não vivem todos as mesmas situações. Eles desenvolvem competências adaptadas ao seu mundo. A selva das cidades exige competências diferentes da floresta virgem, os pobres têm problemas diferentes dos ricos para resolver. Algumas competências desenvolvem-se em grande parte na escola. Outras não.” Tire cada um daqui as ilações que puder…

Serve este preâmbulo para mostrar que os currículos e programas vão e voltam e que as portarias e normativos não desmobilizam, nem desnorteiam os professores. O equilíbrio está na importância que os ensinamentos (competências e conteúdos) trazem para a vida e não para o cumprimento das metas (que é meramente administrativo). Felizmente que os professores encontram sempre forma de levar os alunos à aquisição de práticas e à produção de discursos próprios, onde se entrançam diversas competências do saber fazer, saber ser e saber estar, com a clara concorrência dos conteúdos.

As campanhas publicitárias abaixo, realizadas pelos alunos de Português do 11º C 5, mostram-nos que, através do “faz de conta”, bem radicado nas exigências da nossa sociedade, estamos a produzir materiais a valer , documentos autênticos que bem podiam sair de um jornal, de um atelier de publicidade ou de uma agência de viagens. É o caso destes folhetos de caráter institucional que promovem “ideias” simples como o “sorriso”, a “saúde”, a “viagem” e a “aceitação do outro”.

Estas ações, sempre tão anónimas, estas pequenas conquistas que nos fazem sorrir por dentro, na certeza de que colhemos aprendizagens, não devem ficar na sombra. Por isso, lhes damos aqui o devido destaque, em meras fotos que não fazem jus ao que se vê a olho nu. Dez razões para… continuarmos a insistir.

 

Ana Isabel Falé

http://www.unige.ch/fapse/SSE/teachers/perrenoud/
php_main/php_2000/2000_31.html
(acedido a 18 de novembro de 2015)
http://www.dge.mec.pt/sites/default/files/ficheiros/
programa_metas_curriculares_portugues_secundario.pdf
(acedido a 18 de novembro de 2015)
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