Como nasce e cresce uma escola

A Professora Lucinda Santos enviou-nos um artigo 
sobre a escola e sobre as pessoas que a viram 
nascer e crescer.

 

Hoje a Leal faz anos, 29. Na história da vida de um ser humano, 29 anos correspondem ainda à fase da juventude. Porém uma instituição com 29 anos já viveu anos suficientes para atingir a maturidade e para assumir um lugar, de mérito ou de demérito, consoante o seu percurso, na comunidade em que se insere. No caso da Leal, podemos afirmar e reafirmar, sem qualquer dúvida, que o lugar que conquistou na comunidade em que está inserida (e, não é excessivo dizê-lo, também fora dela) é de reconhecido mérito.

O modo como se processou o seu nascimento, em 1986, talvez não augurasse tão honrosa conquista. De facto, contam aqueles que praticamente nasceram para a profissão com a Leal, ela nasceu no meio do nada, ou seja, numa altura em que Rio de Mouro e Rinchoa não acolhiam nem de perto a população que acolhem atualmente e em que tudo o que havia na zona em que a Escola se situa era mato, lama e água. Para que se perceba melhor a situação, é importante referir que o único troço de estrada alcatroado era o troço que ligava a Escola Secundária Leal da Câmara à futura Escola Básica Padre Alberto Neto, que nasceria no ano seguinte, em 1987. Aliás, para além desse troço de estrada, recuperado para receber as duas escolas, não havia estradas. O espaço da rotunda e das bombas da Repsol eram o Campo de Futebol, situado atualmente para além das bombas, e a estrada, que agora suporta a passadeira pedonal aérea e sobe a caminho da Rinchoa, era um riacho. Como será fácil de perceber, durante o inverno, as escolas ficavam muitas vezes isoladas, sendo preciso solicitar à Câmara ajuda para transportar os alunos para a estação de comboios. Escusado será dizer que, na época das chuvas, o calçado de eleição dos professores, dos funcionários e dos alunos da Escola era as galochas.

Para além dos aspetos situacionais, a Escola Secundária Leal da Câmara abriu, sob a égide de uma comissão instaladora (à qual ligamos sempre o rosto do nosso colega de Matemática, há tempos na reforma, António Alfredo Nunes) mas sem equipamentos. Nem cadeiras havia nas salas de aula. As cadeiras só chegaram à Escola após uma manifestação dos professores, dos funcionários e da população em geral, a qual ficou conhecida como «A guerra das cadeiras».

Porém, o que faz uma Escola é a qualidade e o empenho das pessoas que a dirigem e das pessoas que aí trabalham. Por isso, apesar das dificuldades, ou até, talvez, devido às dificuldades que, como sabemos, se podem transformar em forças impulsionadoras, a Leal conseguiu ultrapassar as condições do seu nascimento, desenvolver-se, questionar-se, refazer-se e fortalecer-se, dia após dia, ano após ano, atingindo, por mérito de todas as pessoas que a ela se entregaram e entregam, o patamar de qualidade que tem nos dias de hoje. Assim, os 29 anos de sucessos da Leal são de todas essas pessoas, de todos nós. Estamos todos de PARABÉNS.

Precisamente porque a história das instituições é feita por pessoas, porque a nossa memória é constantemente revisitada por rostos e porque os dias de comemoração são propícios às recordações, neste dia de aniversário da nossa Escola, tenho muita vontade de lembrar algumas pessoas especiais que contribuíram para o crescimento da Leal e que, infelizmente, já partiram.

Quero recordar a nossa professora Eugénia Barreiros. Quem não se lembra de a ver chegar à Escola, salto raso, vestida de preto, uma mala cheia de livros, sempre prontos a ser emprestados a alguém (eu que o diga, que entrei na Revolução Francesa, em francês, com textos que gentilmente me emprestou e cujas cópias guardo religiosamente) e, na mente, uma criatividade que nunca tinha fim?

Quero recordar o nosso professor Fernando Moreira, sempre de humor acutilante e pronto a aceitar os desafios mais surpreendentes, que tanto poderiam passar por escrever o livro comemorativo dos 20 anos da Leal ou pelo ataque a uma feijoada ou a um cozinhado com grão de bico. Nunca me esquecerei do prazer com que o Fernando falava das refeições, sempre copiosas, que acabara de fazer (e não engordava uma grama) e da História, que conhecia e amava como ninguém.

Quero recordar a nossa assistente técnica, a Fernanda. Dela lembro, sobretudo, o sorriso, a gargalhada única, a simpatia e a capacidade que tinha de viver cada momento com alegria (não se lembram de a ver dançar no jantar comemorativo dos 25 anos da Leal?), como se a vida lhe tivesse dado muito mais do que realmente deu.

Quero recordar o nosso assistente técnico Eduardo Tavares. Ficou-me na memória a forma discreta e educada como se me dirigia. Há dias, em que ainda me parece vê-lo, de lancheira na mão, a descer as escadas, vindo da sala dos funcionários, em direção à secretaria, após o almoço.

Quero recordar a nossa assistente operacional Maria do Céu, que, durante anos, sem que praticamente ninguém desse por isso, tal a descrição, acolheu, com a serenidade e o sorriso muito próprios, os alunos e os professores que se dirigiam ao bar da sala de convívio.

Quero recordar o nosso assistente operacional Vítor Roussou, que tanto atacava o arranjo dos cacifos, a troca das fechaduras, a substituição dos castelos das torneira ou a pintura das paredes dos pavilhões como as baquetas da sua bateria. Lembro-me da garra, da alegria e, sobretudo, do enorme prazer com que o vi tocar num dos jantares que, gentilmente e por iniciativa própria, organizou.

Quero recordar o nosso homem da portaria, o Senhor Magalhães, que, simultânea e paradoxalmente, tinha a capacidade de se irritar e de se enternecer com  os alunos. Lembrar-me-ei sempre da maneira efusiva como me recebia quando eu entrava na Escola.

É graças ao contributo dos que já deixaram a Escola e dos que, no presente, continuam a lutar pela instituição que a Escola Secundária Leal da Câmara é capaz de se reinventar em cada circunstância e, neste momento, se pode orgulhar dos seus 29 anos de história, como efetivamente se orgulha. Por isso, ainda bem que, neste texto, fugindo à costumeira tentação de despersonalização operada em textos desta natureza, decidi seguir o meu primeiro impulso e falar de pessoas concretas. Claro que poderia ter optado por referir outros rostos, nomeadamente rostos do presente. Há tanta gente que se distingue na Escola! Porém tenho a certeza de que estas pessoas se sentirão representadas pelo exemplo dos que foram nomeados e, sobretudo, que se terão enternecido com as memórias que partilhei. É também com a(s) memória(s) que se festejam dias felizes como o de hoje.

Lucinda Santos

17/11/2015

 

 

 

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6 pensamentos sobre “Como nasce e cresce uma escola

  1. Obrigada, Lucinda, por um contributo tão generoso e pela magia de um conto que nos deixou à espera de mais. Esperemos que outros participantes da nossa comunidade comecem também a expressar-se.

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  2. Foi com muito gosto e prazer que li o texto. É também uma bela homenagem a todos aqueles que infelizmente já partiram…
    Adorei o Conto da Lucinda, simplesmente fabuloso!… Parabéns Lucinda pela agradável leitura que me proporcionaste e parabéns à Tatiana pelas ilustrações que tanta vida dão às palavras.

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  3. Quando cheguei, pela primeira vez. à Leal o Diretor Jorge Lemos disse-me: “Vais ser feliz aqui!”. Pouco depois, acreditei. Foi fácil acreditar com o apoio de colegas que me ajudaram a entrar no magnífico projeto de vida, esta escola que tantos jovens recebe e prepara para um caminho seguro e feliz. E há jovens tão especiais. Sentir-me parte desta equipa é um orgulho. Aqui estou bem. Aqui sei que faço e fazemos a diferença. E assim, tudo vale a pena. Obrigada Lucinda, Jorge e a todos que aceitaram o meu contributo e o valorizaram.

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  4. Boa tarde
    Gostei do que li,bem elaborado o jornal digital, o meu comentário não é bem Comentário, apenas para lembrar que partiu uma grande senhora, que nesta escola desempenhou muito bem o seu papel como Chefe do pessoal auxiliar(nessa altura era assim, agora assistentes Operacionais).
    Uma senhora preferências nem amizades, sem discriminar qualquer de nós, e que quando queria chamar a atenção de alguém por algo que não tenha corrido bem, fazia-o numa sala de porta fechada, sem que se apercebessem do que se estava a passar. Lembro com saudade a D.GRACIETE. Paz á sua alma.
    Rosa Maria Santos

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